“Amores difusos”

“Amores difusos” é o nome de um artigo publicado pelo jornalista Ivan Martins na revista Época* que chegou até mim por Indicação da Renata (parceira de leituras). O Texto traz reflexões interessantes de como nos comportamos ao nos relacionarmos afetivamente com pessoas que cotidianamente fazem parte das nossas vidas, mesmo que não sejam necessariamente da nossa convivência “concreta”, mas que de alguma maneira tem presença cativa (cativa de cativante e não cativeiro) nas nossas emoções.
Em determinado momento do texto o Ivan escreve: um sentimento de atração que, mesmo não consumado, faz da vida um lugar melhor para os envolvidos.” Sentimento mesmo não consumado que nos faz a vida melhor? É isso a base do amor difuso, o amor que não precisa ser necessariamente cama, mesa e banho para ser amor, a vida melhor que aí se diz é o carinho e luz que as tais pessoas envolvidas lançam umas sobre as outras.
O amor difuso seria o que só se permite ao bem, digo isso porque há amores tiranos que sufocam, agridem, machucam e se fazem imperativos como se fosse possível amar por coação, mas segue o Ivan: “Os amores difusos pertencem a outra esfera, e por isso não colidem. Eles são menos viscerais, mais leves, nos lembram que podemos experimentar diferentes alegrias na mesma existências.” Experimentar diferentes alegrais na mesma existência, parece ser a chave desse nossa sede pelo amor que seja tão somente amor imperativo que por fim nega a alegria da convivência: ter a alegria, só isso , alegria da convivência. Parece simples né? Já tentou do amor ter só alegria? Sem cobranças, sem sentimento de posse, sem insegurança, medos, sentimentos de inferioridade e inveja? Sim inveja, porque há pessoas que sentem inveja do outro, do sucesso do outro, da grana do outro, deveria ser incentivador, mas inveja àquele que ama e odeia ao mesmo tempo.
Em um dos melhores momentos do texto o Ivan diz: "os amores difusos fazem parte da esfera de sentimentos que começa na pessoa que você escolheu e vai se expandindo num círculo para incluir outras pessoas de quem você precisa.” Amores difusos são transitórios? Você escolhe alguém e aprende com esse alguém a ser mais leve, mais suave, aprender a amar sem as velhas queixas e masturbações sentimentais até que um dia neste coração mais suave que agora bate em seu peito você descobre que precisa de alguém que complete sua rotina e não só suas emoções?
Talvez o Ivan nos dê a resposta: “ando convencido que a nossa vida afetiva tem uma espécie de centro e que nele só cabe uma pessoa de cada vez. As nossas grandes aventura emocionais, a nossa verdadeira história íntima, são escritas ao redor dessa exclusividade”. Concordo com isso, vivemos de cada vez nossa aventura em nos permitir a outra pessoa, às vezes até nos enganamos pesando que ocupamos o centro emocional de alguém ou que esse alguém ocupa o nosso, mas é inegável que para se viver essa história íntima buscamos sempre o melhor do outro, esse melhor pode  ter vários nomes, mas resumo para mim em uma palavra: felicidade.
Felicidade que todos buscam, todos querem e muitos não reconhecem quando a tem, nada mais simples de encontrar e nada é mais falsificado que a felicidade, o amor difuso como escreveu o Ivan, emociona por ser simples, por desejar tão somente momentos de paz, cumplicidade e alegria da convivência.
O que vem depois desse amor difuso? Não sei, não se pensa no fim de uma emoção, apenas se vive essa emoção enquanto se for possível, tempo e distância não existem para quem ama difusamente, mas não nos iludamos, sentimentos são sempre sentimentos é não lógica aristotélica, no entanto é bom lembrar que somos feitos para a rotina que cria laços, para a vida em sociedade, o jantar ao fim da noite, o convite ao parque, para ligar e pedir que venha trocar o pneu do carro, para a leitura coletiva de um livro, o dormir conchinha em dias de frio, para ajudar a vestir a roupa do inverno que deixa sempre mais bonitas as pessoas, para ajudar passar óleo na barriga nos dias de dores TPM, para dividir alegrias, para abraçar na rua, para sentir frio na espinha quando encontramos nosso amor como se fosse sempre a primeira vez, para viver intensamente o amor adolescente, aquele que só o casal sabe que vive na intimidade do quarto quando brincam de médico e enfermeira, para brigar e dormir no sofá ou encher a cara para ter coragem de pedir desculpas, enfim o amor difuso é encantador, mas não vai sobreviver a necessidade que todos temos do calor humano no riso bom de uma acordar juntos em uma mesma cama, em uma mesma esperança de vida.
Ps:Texto escrito ao som de: Castles In The Air" canção maravilhosa cantada pelo voz maravilhosa do não menos maravilhoso  Don McLean.

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys