Medo, medo e medo

De que tenho mais medo na vida? Tenho medo do que mais amo, tenho medo de gente. Se coração de gente, eu sou gente, é terra que ninguém anda, eu tenho medo das terras que não ando, mas me sinto seduzido a andar.
Dia após dia meu amor me tortura, porque meu amor só se realiza naquilo que tenho medo, naquilo que me preenche e me esvazia as energias, me faço secundário no meu próprio caminho, sendo para tantos outros porta, não consigo abrir a minha. Amar o que nos mata é um viver nas aspas inquietantes de um profano riso sem muito sentido.
Queria a calma de um pequenino riacho, sentar ao lado do meu amor e ouvir Bach ao entardecer, mas há tanto ódio nos olhares, tantas desconfianças que a ponte até ao amor é um mistério recusado pelo meu coração. Nos tornamos infiéis da nossa própria condição, meu amor é uma ilusão que criei para mim neste coração aflito e quase sem esperança de dias melhores.
O mesmo amor que nos salva é o mesmo que nos fragmenta quando dele só temos a saudade, nos faz poeira nos braços da brisa triste, o amor mata, fere e machuca quando só um coração o sente.
Sou paixão, sangue nas veias, não ter causa é mesmo que brincar com a morte no quintal, sou gente e gente devora gente, faz gente, se corroí estrela e sol de pequena grandeza, sou o medo que é coração, o sal no amargo feminino.
Madrugada, sem ela seria menos do que sou, a madrugada me faz ouvir essa voz que vem de longe, me afaga a cabeça, me põe no colo, me diz coisas bonitas e por alguns instantes penso que não estou sozinho, penso que a vida é doce e feliz, penso que aqui comigo o amor se faz amigo.



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