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Purificação

Dias de chuva sobre o sol dos meus olhos, ando tão sozinho na delicada aventura de me manter bem para quando você chegar. Você que não tem olhos ou cor, você que só existe no abstrato das minhas emoções. A única fuga possível é para ilha espiritual que dentro desse meu corpo exílio espera a primavera torrão do mar que não floresce.
Não sou de guerra, há muito minhas armas foram entregues aos inimigos, a solidão ronda minha casa, na palavra tremula apenas o desejo de calor para alma em gravura de gelo, o outro é pode ser mal, mas também poder ser a alegria do amor que não se faz cabo de guerra.
Viver de sensações é meu antiamor, sensações mal amanhecidas, com orelhas. Sentir pelo outro a sensação maravilhosa do amor e ouvi como carta resposta o eco riso de quem vive para além dessa rotina romântica desnecessariamente fútil.
Já estou tão acostumado com os que se vão sem dizer ao menos adeus que ferida alguma machuca mais, quem nasce para poeira de rua não pode sonhar com o riso diamante que toda pessoa feliz tem. Desejei da vida sempre o mínimo fui enforcado pela máxima indiferença dos que me atravessa como fantasmas nestes filmes classe B.
Escuto Sweet Caroline com Neil Diamond, não falo inglês, sou analfabeto em inglês, mas algo me diz que ele canta para mim, fecho os olhos me sinto voando por aí pelas pautas dessa canção no amor que quero para mim. Tento comer com a mão esquerda e não consigo, não sei usar a mão esquerda, dói mais uma vez meu coração enquanto o garfo ri da minha ignorância.
Muitas coisas estão comigo nesta ignorância santificada em meu corpo, mas ando, ando pelo vale da Purificação, vou sozinho ao Bistrô, compro livros no Sebo, tenho uma grande vida estanque e meus alunos acham que aprendem algo comigo, sou correnteza que do mar não sabe a alegria de chegar.
A solidão faz a gente ver fantasmas nas nuvens do céu quando é dia de cinza chuva, não se pode ser gente e fantasma ao mesmo tempo, sincero é o tom amargo, mas nada disso é o mesmo que fraqueza.
 A poesia invade a prosa, os positivistas de plantão dizem que sou egoísta, dizem que o mais importante são as causas sociais, não há causa social maior que o amor e amor compartilhado, porque amor ilhado inunda e mata a gente.



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