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“Caverna do Dragão”


Esses dias em conversa, com meu amigo Simão Augusto, disse a ele que para mim teria sido menos constrangedor ter vivido durante a ditadura militar, com um pouco de sorte seria exilado, com um pouco de azar seria morto, mas seja lá como for viveria em uma época na qual minha vida faria e teria sentido completo, mesmo que fosse para ser morto aos vinte poucos anos nos porões de uma imunda e covarde ditadura.
Se vivido nos anos verde oliva da ditadura militar e fosse exilado levaria a mala cheia de saudades, incertezas e uma velha bandeira do Brasil nas mãos, uma tristeza que não rimaria nunca com vergonha, porque consciente dos meus atos por um país sem opressão, seria um homem completo, saudoso, mas completo.
Depois de vinte anos voltaria, teria trabalhado em universidades, escritos livros, teria sido cronista em um jornal qualquer, estaria envelhecido, dirigiria filmes, daria entrevista com leveza, lembraria dos amigos mortos, morreria la pelos setenta anos deixando uma vida para o futuro.
A democracia não me quer, me enruga a alma, encarcerou-me nos meus próprios sonhos, essa democracia tem mania de torturar almas, sabotar desejos e cultivar esperanças nos corações que deveriam ser do fazer e não da esperança moribunda. Estou cansado, sou inquieto e sendo inquieto não engulo facilmente a dor de uma democracia de mão única, que sangra e nos arrasta a cara no lixo da esperança.
Se tivesse vivido durante a ditadura militar, morresse naquele tempo, morreria feliz porque teria morrido na vanguarda dos meus sonhos coletivos com os meus camaradas sinceros, hoje a democracia me mata todos os dias de solidão, me mata na solidão dos meus sonhos que só querem um café pela manhã e um pão para matar a forme, não quer mudar o mundo ou vencer o capitalismo, quer só se alimentar de pão, amor, vida, alegria, carinho, ternura, paz de espírito.
Esses democracia me deu úlcera, gastrite, esofagite. A ditadura poderia ter me dado Londres, Paris ou qualquer lugar que viver fosse possível, viver sem vergonha ou medo de viver. A democracia ignora minha existência, democracia angustiante como em uma peça de Samuel Beckett que esperamos esperamos algo chegar e nem a morte chega.
Reinventaram a ditadura na sua forma mais perversa e cruel, permitem a vida, mas não permitem o existir. A ditadura militar nos apontava ao menos o caminho do aeroporto ou do cemitério, a democracia reinventada nesta penumbra azeda e mentirosas nos aponta caminho algum, nos condena a vida sem existência ou história, transforma a vida em uma coisa rasa e superficial, como cotas que prometem a felicidade e só nos humilha feito prostitutas em um bordel que são obrigadas a risos e fingimentos de gozo para seus clientes.
Democracia incestuosa entre poderes serviçais de organismos parasitários. Tempo de arte sem propósito, arte sem delicadeza ou agressividade, tempo no qual hienas servem-se do sangue bom dos nossos ideais e o povo come feliz estrume e ainda agradecem ao deus de plantão por isso.
Vejo movimentos sociais de merda que dizem lutar contra o capitalismo, mas só consomem o que esse mesmo capitalismo celebra como bom, estão sempre na moda da mediocridade, dizem que a mídia é golpista, mas tudo que querem é uma entrevista da Rede Globo ou na Veja, lideres sem terra vivendo em luxuosos apartamentos enquanto na beira das estradas famílias inteiras mendigam não mais por terra, mas por pão e água.
Movimento estudantil parasita e covarde, não defende causa alguma, porque estão a serviço de avançados organismos criminosos partidários, envergonham a história de luta e coragem dos antigos lideres estudantis desse país.
Artistas fascistas, celebridade da arte sem arte, do riso adestrador de uma massa triste que tem como perspectiva de felicidade mostrar os dentes na euforia vazia que representa suas vidas. Estamos vivendo o tempo da negação da história, estamos na época da não história. Esse começo de século vai ficar conhecido como a época sem história, um vazio de tempo será a representação desta época.
Cadê a poesia de mão nas ruas em mimeógrafos? O Samba que ia além da dança? Que país é esse que mesmo em dor bate palma feliz para o dia sem sol de hoje? Que merda de presente é esse que o passado por mais pavoroso que seja parece sempre melhor? Cadê a indignação? Meu coração flor do sertão diz adeus, cantem não por mim, porque esse sino há muito já dobrou por todos nós.
ediney-santana@bol.com.br
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