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Eu não ando pelo mundo

Eu não ando pelo mundo, mas presto atenção nas coisas e nas cores, prestei muita atenção nas pessoas e me perdi em alguns corações nem sempre fáceis de encontrar o caminho de volta.
Não vou voltar para o sertão, ficarei aqui no recôncavo em ossos e talvez espírito, eu ando pela minha ruazinha, havia tantas coisas boas em mim, mas veio o outono e tudo foi varrido pelo vento nestas velhas ruas.
Eu sinto dores, mas isso não me impede de prestar atenção nas dores alheias, alheias dores, meu amor cadê você? Em qualquer canto, talvez na Groelândia ou em um sábado mágico para além da minha imaginação de homem pequeno e interior pequeno.
Eu ando pelo mundo, bebo cervejas, compro livros e acho linda a moça que desenho na ilusão da minha Bic azul. Estou com fome e frio, deito nu, estrelas piscam, me dizem do bem que pode ser outro planeta...Eu amo tudo que os olhos não conseguem enxergar: Deus, amor, alma, fantasma e os olhos loucos da moça nos meus traços simples e sinceros.
Tenho tanto amor e um corpo ilha, amor que transborda e afoga a mim com seu ego, seu reflexo azedo... Minha alegria cadê você?



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"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Mãos calejadas, meu Deus.

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