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“Para cima do medo coragem”

A frase título desse texto sempre é dita por minha mãe em momentos que estamos em alguma crise, otimismo materno que nunca costumo desprezar. “Para cima do medo coragem”, e quantos medos se têm durante uma vida? A maioria dos medos são tolos porque não tem jeito mesmo, com eles ou sem eles vamos passar pelo meio do incêndio. Quase sempre se atravessa esses incêndios sozinho, poucas pessoas querem se arriscar nesta travessia, ainda mais se elas não foram as responsáveis pelo fogo. Dor é coisa que se sente geralmente sozinho.
Quando estava entre a infância e adolescência era vizinho de uns carinhas ricos, dois meninos e tinha uma menina que eles viviam beijando, mas ela nunca quis me beijar, sua boca  rica não via atração alguma na minha filho de proletário.
Minha mãe com seu sexto sentido proletário aguçado vivia dizendo para me afastar dos boyzinhos ricos, para ela não poderia acabar bem uma amizade de mundos tão diferentes, mas eu argumentava que os caras eram legais e me deixavam jogar no ATARI deles, e eram mesmo legais, passávamos as tardes jogando ATARI, eles até me ensinaram a andar de bicicleta, foi em uma BMX, febre da molecada dos anos de 1983.
Foram legais até um dia, uma manhã de domingo, sumiu na casa deles um aquaplay, joguinho movido à água e muito interessante, a irmã dos meninos, linda de olhos grandes e azuis, que sempre fora gentil e educada comigo não pensou duas vezes: “foi o Ney que roubou”, a mãe dos garotos completou: "ele é pobre teve inveja e levou”.
Ouvi tudo calado, sentado no sofá, tremulo e sem nada a dizer, olhei para os dois colegas, eles me olhavam com ódio, por fim fui expulso da casa com recomendação de nunca mais voltar.
Cheguei em casa, na fragilidade dos meus oito ou nove anos de idade sem alma, sem nada, deitei  na cama e pensei sempre no que minha mãe dizia.
Nos dia seguinte não voltei ,claro, a casa dos meninos, minha mãe estranhou, disse que resolvi segui seu conselho e procurar pessoas da minha condição de vida. Por dentro um vazio me corroía, não havia roubado nada, mas o que mais me doeu foi à falta de solidariedade dos carinhas em não me defender.
Anos e muitos anos depois, ontem em Salvador, encontrei um dos meninos, agora como eu, homem feito, não o via há anos, mas nos reconhecemos, se aproximou de mim e disse: “ Ney, sou eu XXXX,” respondi que lembrava dele, me chamou para comermos algo na praça de alimentação do shopping , hesitei um pouco, e se sumisse alguma coisa? Ira dizer que foi eu novamente? Vai ficar calado? Pensei tudo isso sem demostrar constrangimento pelo convite.
- Cara durante esses anos todos nunca me esqueci de você, você era um super amigo meu e do meu irmão, mas aconteceu aquele lance, fomos covardes, deixamos você na fogueira, mas quero te pedir desculpas, ninguém roubou o aquaplay, quem ficou com ele foi a XXXX em troca de algumas intimidades além dos beijos que sempre nos dava, fomos covardes, me desculpe.
Fiquei olhando para aquele cara bem vestido, brincando com a chave do carro entre os dedos. Na verdade acho que sempre esperei aquele pedido de desculpas, mas não havia traumas, afinal me ensinaram a andar de bicicleta, respondi que não tinha problema algum, levantei e disse que tinha que pegar o ônibus.
- Você ainda mora em Santo Amaro?
- Sim
- Faz o que la?
- Dou aulas
- Sou publicitário, vi você na TV um dia desses falando sobre o rio e meio ambiente.
- Que bom, mas tenho que ir, ta quase no horário do ônibus.
- Ney, só mais uma coisa, você deve ser um bom professor, sempre nos ensinou coisas boas, pena que não tivemos coragem para ficar ao seu lado naquele dia.
- Relaxa, sem problemas.
Sai quase correndo, atravessei a passarela, entrei na rodoviária e voltei para casa, confesso que foi bom ouvi aquela confissão de culpa 30 anos depois.



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