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Ao que não mais ensinar

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Hoje pela manhã preparando aula para os alunos da tarde me peguei pensando o que ensinar se tudo é tão previsível quanto uma fria pesquisa no Google  Um dia li “Conversa com quem gosta de ensinar” do Rubens Alves e ele falava que deveríamos ensinar nossos alunos usar o nariz para que sentissem melhor o perfume das flores. Tantas coisas pode-se aprender com o cheiro das flores, quando meu pai morreu colocaram umas flores (todas da mesma espécie) sobre seu corpo e para mim o cheiro daquela flor passou a ser o cheiro da morte.
Quando morremos em nós todos os sabores ruins da vida, ou seja, matamos em nós tudo que nos aflita o espírito temos a oportunidade fabulosa de nos reencarnamos no paraíso das nossas escolhas, ao contrário se insistimos em viver com abutres sobre nossas cabeças e levar no coração velhas agonias estamos muito piores que os mortos dos cemitérios, estes ausentes de tudo são o que nossas lembranças determinarem.
Ensinar a sentir o perfume das flores, tocar sem medo a mão que nos estende o coração, saber que por dentro somos mais feios que os monstros de MIB - Homens de Preto, o que nos salva é o espírito, nos salva ou nos afoga nas nossas tolas vaidades. É triste saber que algumas pessoas só se tornam mais gente quando descobrem um câncer ou que dentro de si há alguma bomba relógio que vai lhe devorar tudo.
Ensinar o quanto palavras só são palavras e nada vale ser um Pasquale se palavra for apenas sintaxe de semântica ruim, de amor devorador e paixão egoísta.  A palavra não faz as pessoas, quem nos faz somos nós mesmos na lida constante com nossas contradições e solicitude com o outro e o outro é tão mistério quando uma poesia de Arthur de Salles.
Ensinar que se negro ou branco, somos todos iguais que podemos nos transplantar para qualquer corpo, seja de um deus nórdico ou de um deus africano escravizado na Bahia, que na hora do medo desejamos uma mão salvadora e qualquer santo nos faz bem ao milagre da vida.
Ensinar que saber não nos torna superior à pessoa alguma e que na verdade quanto mais saberes se têm mais serviçais deveríamos ser, saber + vaidade é a soma da mais estremada burrice, saber sempre reconhecer que somos ignorantes e que nos afirmarmos na busca por nosso espaço não é ser desleal ou sacana com quem está a nossa frente tão pouco fechar a porta para quem vem atrás buscando também seu lugar na fileira das conquistas.
Ensinar que escolher viver sozinho não é o mesmo que viver só para si, viver para si é ser incapaz de sentir o mundo que não seja seu, viver sozinho é uma relação íntima consigo mesmo sem negar a possibilidade de abraçar quem cruza nosso caminho.
Ensinar que por mais que nos doa termos uma relação sincera com as pessoas é o melhor caminho para a felicidade, dizer o que tem de ser dito, mas neste dizer o que tem de ser tido podemos ser delicados, mas firmes, a auto- ilusão é um dos maiores equívocos que podemos cultivar no coração de alguém.
Ensinar que às vezes deixar o celular desligado, ouvir uma canção do Ademo no mais escuro do nosso quarto é uma maneira de exercitar nossa mais profunda relação com o que temos de melhor: nossa capacidade de nos emocionarmos com nós mesmos.
Um dia perguntaram a Édith Piaf, ela já no fim da vida, o que deixaria de conselho para as pessoas, ela respondeu: amem, amem e amem. Ela não respondeu que deveríamos nos amar, ela disse para amarmos. Então amem sem esperar amor em troca, ame para se sentir bem, para que seu coração, como na canção de Braguinha e Pixinguinha, bata feliz.
Ensinar que palavras são só palavras, que pouco importa se seu colega ao lado seja um filho de uma puta, se os exemplos de sucesso neste mundo sejam quase todos filhos da puta, todos nós em algum momento da vida são também filhos da puta, mas peça perdão quando for um filho da puta, não importa se vai ser perdoado ou não, importa esse dialogo solidário entre você e sua culpa.
Aprende-se com as mãos, goza-se com as mãos, se faz gozar com os dedos, se alegra pelos olhos, se apaixona-se pelos olhos, mas só nos eternizamos mesmo pelo que sentimos com o coração e não com a língua.



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