Aos vendedores no ponto de ônibus

Bob Marly, morto aos 36 por um câncer fulminante, já era um fenômeno mundial da música quando sua vida se foi precocemente. Seu pai, um oficial militar inglês ao engravidar sua mãe a abandonara a própria sorte, criado em pobreza aguda em uma favela na Jamaica, Marley aparentemente teria poucas chances na vida, mas o talento incrível para compor e cantar somados a um carisma fora do comum aos 20 de idade já tinham feito de Bob um artista consagrado.
Conheci as canções de Bob Marley quando vendia bombons e chocolates em um ponto de ônibus, deveria ter uns oito ou nove anos de idade, todos mundo que vendia no ponto gostava e ouvia Bob Marley, mesmo ninguém sabendo uma só palavra em inglês, àquelas canções exerciam fascínio nas pessoas, algo quase que como mantras, Bob Marley nascido no Caribe, perto dos Estados Unidos, era parte daquela paisagem e em todo litoral da Bahia, mas ele já estava morto, não viveu o suficiente para um dia vir à Bahia, certamente seria uma comoção nunca vista.
O poder da arte, mesmo cantada em uma língua estranha, de alguma maneira havia uma comunicação e as pessoas sentiam, eu sentia que o Bob cantava para todos nós. Anos mais tarde um locutor, já falecido, Lino de Almeida, no seu programa semanal em uma rádio de Salvador, traduzia canções de Bob Marley, a intuição das pessoas não estava errada, o Bob cantava para os pobres, para os humilhados pelo sistema, para os que buscavam paz de espírito, para os que desejavam amor e amor sobre verdade como ele gostava de gritar nos seus shows pelo mundo.
Nas letras traduzidas cada canção se revelava um alento. Anos e muitos anos mais tarde quando minha vida deu uma guinada e fui para universidade, encontrei lá professores que se diziam marxistas, ista daquilo e disso e tudo não me pareceu muito novidade porque la nas letras de muitas canções do Bob  já falava das lutas de classe e de quem sempre se dana nisso tudo: nós outros os pobres.
Os professores nas universidades só escondiam que seja lá marxista ou capitalista a reserva de miseráveis deveria sempre ser mantida em níveis sociais controlados pelo Estado e minha presença ali  e de algumas pessoas estranhas ao meio da elite intelectual não era algo saudável para o sistema, seja lá de direita ou esquerda minhas suspeitas estavam certas, anos depois Lula chegou ao poder e todos sabem o que aconteceu, mas é fato que para mim e tantas outras pessoas o discurso da esquerda era sedutor, amigo e de certa maneira até acolhedor, mas era apenas discurso, porque direita e esquerda no Brasil é só uma questão de se está no poder ou não.
Às vezes fecho os olhos e reencontro o garoto Ney vendendo seus bombons e chocolates entre a passagem de um ônibus e outro, indo ao supermercado Colosso e comprando um caderninho “Companheiro”, à noite deitado na cama (coisa que faço até hoje) rabiscando versinhos, fazendo anotações das coisas que queria para mim, o garoto Ney atravessa a ponte das Moringas como se fosse para qualquer cidade, mas sempre voltar para dormir na sua cama, para a solidão das suas utopias, para sua coleção de amores equivocados.
Abro os olhos e vejo o tanto que já andei, quase nada, mas muito para um garoto que passou metade da infância ouvindo um cantor que ele não entendia sua língua, mas tinha certeza que cantava para ele, o milagre da arte ajudou um garotinho vendedor de doces a ser um professor que ajudar na formação de tantas outras pessoas. Obrigado Bob...


  

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