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Com Tiê pela madrugada

Tiê
Algumas pessoas não fazem poesia, são a poesia com seus dramas, suavidades, asperezas e vida que pulsa sem medo. A cantora e compositora Tiê é a poesia na mais completa harmonia entre suavidade e delicadeza, voz calma e músicas tão delicadas quanto sua aparência angelical.
As canções de Tiê tem um quê de madrugada ou fim de tarde no qual tudo que queremos é abraçar quem amamos , esquecermos o tempo, trazer para dentro da gente toda sua leveza e por alguns instantes sermos essa poesia doce do seu violão enamorado do seu canto nuvem e pólen.
Quando ela canta “Dois” sinto vontade de sair pelo tempo, pela vida que se constrói de acasos, “Dois” é um convite avida em parceria com outra pessoa, mas também pode ser um convite a nos aproximarmos mais de quem somos sem medo de críticas ou arrotadores de verdades divinas.
Sou encantado com uma das suas letras, “Assinado Eu”, poucas vezes vi a contradição do amor que repele e atrai ser tão bem escrita e cantada: “Já faz um tempo/ Que eu queria te escrever um som/ Passado o passado, Acho que eu mesma esqueci o tom/ Mas sinto que/ Eu te devo alguma explicação/ parece inaceitável a minha decisão/eu sei/ da primeira vez/ quem sugeriu/ eu sei fui eu/ da segunda quem fingiu que não estava ali também fui eu/ Mas em toda a história, é nossa obrigação saber seguir em frente, seja lá qual direção/seja qual a direção/ eu sei/ tanta afinidade assim/ eu sei que só pode ser bom./Mas se é contrário/ é ruim, pesado/ e eu não acho bom/ eu fico esperando o dia que você me aceite como amiga/ ainda vou te convencer /eu sei/eu te peço/ me perdoa, me desculpa que eu não fui sua namorada/ pois fiquei atordoada/ faltou ar/ faltou ar/ me despeço dessa história / e concluo: agente segue a direção que nosso próprio coração mandar/ é foi pra lá/para lá”.
Um pedido de desculpas cantado e escrito com tanta sensibilidade que se deseja sempre esse rompimento com vontade mesmo é de ficar, o medo das afinidades, o amor que assusta e a coragem que faz falta para a ciranda da vida que é amor, sal e flor como o canto da Tiê moldura exata para suas letras que são poesias.
Na madrugada ouço a Tiê, me encolho na cama e suas músicas me descansam o corpo, me leva alma por lugares que ser amado é tão possível como andar na chuva na infância alegre que o tempo não desbotou em cinzas, ser feliz pela alegria das lágrimas que negam a tristeza , um lugar doce como ouvir uma voz cristal a nos ninar a paz desejada.
A canção “Aula de francês” é um orgasmo sonoro, convite à paixão que embriagada de vinho nos deixa pele em sensibilidade, mas também é cruel quando se ouve sozinho palavras tão musicais sussurradas ao pé do ouvido em uma madrugada fria e solitária. Deseja-se abrir a porta e sonhar com quem amamos a invadir nossas vidas.
“Se enamora” nos leva para um tempo da inocência, do primeiro amor na escola, quando o coração batia rápido só por cruzarmos com alguém, a espera da hora do recreio, se arrumar para ir à escola na alegria do amor cruzar o portão. “Se enamora/ quem ver você chegar com tantas cores e passar perto das flores/ parecem que elas querem te roubar/ a gente de repente se enamora/ e sente que o amor chegou na hora/ e agora gosto muito de você”.
E ao som de Tiê vou levando minha vida entre tantos desejos e cores, às vezes tão feliz quanto o personagem de “Se enamora”, às vezes sendo eu mesmo e nunca perdendo aquela velha esperança romântica que ressurge na voz de uma cantora maravilhosa e que combina com cidades pequeninas como a minha ou com pessoas e suas “solidões” pelas capitais do país.

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