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“Meu Deus mais que cidade linda!”*

Ediney Santana
Cresci ouvindo meu pai contar a história de amigos seus que foram para Brasília quando a cidade ainda nascia da convicção de Juscelino Kubitschek de criar no meio do Planalto Central uma nova capital, longe do mar (ao contrário das outras duas Salvador e Rio de Janeiro), distante das capitais, uma cidade repartição pública, burocrata e impessoal como o poder requer para se fazer poder. Kubitschek não construiu um país, sem querer construiu uma cidade que é o país, pelas ruas de Brasília podemos ouvir todos os sotaques e encontrar pessoas de todo país, a cidade que nasceu para ser o exílio do poder foi retomada por quem a fez de verdade: o povo.
Fui a Brasília a convite da Renata , que entre seus mil e mil afazeres encontrou tempo para ciceronear esse camarada acostumado a outro exílio diferente do idealizado por JK, o exílio do coração. A Renata me mostrou sua cidade, uma cidade distante da Brasília que estamos acostumados a ouvir falar e presenciar em momentos não muitos agradáveis,isso porque idealizamos na maioria das vezes Brasília, a confundimos com as ações desastrosas de políticos eleitos quase sempre pelo símbolo  da irresponsabilidade dos seus eleitores. 
Na Praça dos Três poderes olhando aqueles prédios todos entendi o que Oscar Niemeyer pensou ao projetar todos eles: pensou em simplicidades, sim, porque ao contrário da grandiosidade que Brasília  sempre aparece  na TV os palácios e Congresso Nacional me comoveram pela extrema simplicidade das formas, talvez por isso tenha chamado a atenção do mundo o que fez Brasília ser reconhecida como patrimônio da humanidade.
Niemeyer deixou um recardo claro os poderosos do seu tempo e os da posteridade: sejam leves, suaves, ágeis, funcionais, não sejam soberbos, sejam diretos, simples e humanos, transparentes, claros no dizer pensar e sentir a respeito desse povo tão sofredor. Foi essa a impressão que tive ao olhar aquelas repartições públicas, confesso que ao olha-las pela primeira vez tive que conter minhas lágrimas, porque fiquei muito emocionado de está ali naquele lugar, a cidade que parecia fascinar meu pai estava ali diante dos meus olhos.
Não é fácil para um  forasteiro entender Brasília em primeiro olhar, porque Brasília é uma cidade não cidade, é uma cidade que não se parece com nenhuma outra, não ha ruas como as ruas que estamos acostumados, tudo parece retas que podem nos levar para qualquer lugar ou nos perdemos como aconteceu comigo e a Renata.
A vida em Brasília parece ser burocrata, porque o espírito da cidade é burocrata e formal, não é fácil encontrar emoções naturais, tudo parece ter hora para acontecer e terminar, tudo tem seus setores, como cidade projetada Brasília não é espontânea, por ser tão formal  pude notar nas pessoas traços de tristeza e melancolia. Brasília é funcional, mas carece de felicidade, dessas que surgem do nada e nos deixa com cara de bobos diante gestos simples, Brasília e viciada em ostentação, até os moradores de rua tem certa presunção, Brasília não sabe o que é humildade , lá você  tem que ter para ser, a poesia e concreta e exata, falta o lúdico.
Brasília é uma cidade de oportunidades, em todos lugares ha sempre algo para se fazer, a cidade vive de prestação de serviços, tudo vem de fora,é preciso muita gente, ha oportunidades de trabalho, quem não teme trabalho não passa mal por la, a cidade vive intensamente seu presente, tudo acontece no agora, o futuro parece ser sempre panejado, lá o tempo presente é o que move a cidade.
Brasília tem arte, em meio à tensão de se viver em uma cidade admirativa, a arte brota no meio da terra árida e vermelha do serrado, fui ao teatro e tive o prazer de assistir dois grandes espetáculos com dois geniais atores (infelizmente perdi seus nomes, quando encontrar coloco aqui) O museu de arte é um espetáculo fascinante, a Renata me levou a uma exposição monumental do Gilberto Gil, penso que poucos artistas no mundo são homenageados como Gil foi naquela exposição.
Brasília é arte, para minha surpresa encontrei o ápice cultural dentro do Congresso Nacional exposições obras de arte ,muita leveza e suavidade, simplicidade. Pensei: como esses pangarés deputados e senadores não sentem as vibrações boas deste lugar? Minha cabeça ferveu de ideia, de coisas possíveis, mas voltei logo para minha concreta realidade nordestina que não conta lá muita coisa neste país.
Tenho 39 anos, nunca havia saído da Bahia, nunca fui tão longe do mar, pensei honestamente que nunca sairia para lugar algum, me emocionei varias vezes nesta viagem, fiquei emocionado ao ver na prática que anos de dedicação aos estudos e cultura não me fizeram perdido no mundo, muitas coisas que vi em Brasília eu já conhecia, então a teoria convidou a prática para um baile e foi uma festa na minha cabeça.
Estavam na meu baile ilustres brasilienses de coração ou nativos, dancei alegre imaginando a Cassia Eller trabalhando como ajudante de pedreiro e  tornando-se lentamente a artista maravilhosa que conhecemos, fechei os olhos na solidão do hotel e pude ouvir Oswaldo Montenegro dizendo versos para mim, fui até os anos de 1970 na Unb e encontrei a turma da Colina rabiscando o que um dia seria muito importante para mim, pude encontrar na porta do Teatro Nacional o Renato Russo sentado tocando seu violão, apertar a mão do Herbert Viana, ouvir o Dinho cantar “ Fátima , o louco do André Fredrik Pretorius que sem saber ajudou a criar gigantes da música do país como o Capital Inicial, Plebe Rude e claro Legião Urbana.pude me imaginar cruzando com o Philippe Seabra e o Fê Lemos em algum evento multicultural na Unb...E até quase cruzei com Eduardo e Monica no Parque da Cidade.
E foi assim minha viagem a Brasília, não sei se sairei novamente da Bahia, mas me encantou saber que minha imaginação não me enganou, tudo idealizado se fez. Fica aqui minha gratidão, carinho e ternura de sempre para a Renata que me chamou e eu fui...A vida tem seus mistérios alguns agradáveis de desvendarmos.
* Frase de Renato Russo em “ Faroeste Caboclo”

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