Não, porém todavia

Simone de Beauvoir 
Onde estou que às vezes ao me olhar no espelho sinto saudades de mim? Chove agora à noite, uma chuvinha boba nem da para molhar a esperança tristinha do meu coração que nem sei se é meu mesmo. Levo meu Carlos Drummond de Andrade para cama e seus versos são lençóis para esse meu corpo vazio, corpo de alma vadia pelos campos áridos do mundo na busca quase inútil pelo amor que talvez só eu acredite que exista:
"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.”
Insisto em dizer: “meu amor”, agora o digo do alto da montanha mais azul , me volta em eco o amor que ao outro gritei, volta repleto de mim, é melhor enamora-se do próprio eco que esperar em vão por um “eu te amo” que talvez nunca seja dito.
É preciso saber-se gigante quando o tempo parece senhor absoluto em nos trazer desenganos, é preciso ser girante para caminhar ao coração sol, estrela e alecrim do outro lado da rua, dizer do bem só o bem, da alegria só o tempo que somos alegria.
Gilberto Gil canta pela madrugada no meu quarto: “Se eu sou algo incompressível, meu Deus é mais”. É Deus é o senhor incompressível por isso mesmo tem muitos nomes e vive a confundir tudo, ora senhor da guerra, ora senhor do mais sublime amor, ah! O amor, quanto mais a senti-lo, menos a tê-lo.
Quase sempre anoiteço “Adamo Salvatore”, canções francesas feitas para fazer adormecer pessoas como eu, minha cama é fogo que se encandeia como se sobre mim Simone de Beauvoir revisse plena e risonha, mas desejaria mesmo era beber um café ou umas biritas pelas ruas de Paris com Marguerite Yourcenar, sou tão dela, a mulher que nunca tive, mas sempre dormiu comigo na minha cama.
A Vivi Fernandes é antítese de tudo isso, é a realização da carne perfeita, não sei se ela tem espírito talvez o tenha, mas esconde muito bem , a Vivi e a festa que tem hora exata para acabar, ama a carne, carne é tudo que envelhece, morre e apodrece, não é como a Marguerite que passou a vida entre os corredores do espírito humano por isso é tão eterna quando Napoleão ou D. Pedro II que gostava mais da mulheres que do Brasil.
Sou do Brasil cheiro de terra, cru, tosco, labirinto, o Brasil em que sem malandragem e jogo de cintura se envelhece cedo, morre-se cedo. Nada é mais lindo que a caatinga depois da chuva, meu Brasil é essa mistura mar e caatinga, o mundo é que nos faz sentido.
Angela RôRô canta aos meus ouvidos :

“Amor, meu grande amor
Me chegue assim
Bem de repente
Sem nome ou sobrenome
Sem sentir
O que não sente...
Pois tudo o que ofereço
É, meu calor, meu endereço”

Ainda chove, que alegria essa chuva, como as plantinhas do quintal parecem sorrir a cada pingo que cai sobre elas, ainda tá um friozinho daqueles que pedem cama e corpo com cheiro de alecrim caindo sobre nós como os pingos de chuvas sobre as plantinhas do quintal.
Não, porém, todavia sou feliz como o encontro perfeito entre as plantinhas do meu quintal e a chuva preguiçosa que cai, in- feliz- mente a chuva cai de vez em quando e as plantinha morrem de saudade dessa alegria sentida que é a chuva fazendo festa no quintal, valsando juntos como casal de noivo em dia de casamento.


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