Solidariedade

Tenho a convicção de que uma das maneiras mais sublimes de diminuirmos o sentimento de solidão que nos acompanha cada vez mais de perto neste começo de século é sermos solidários. Ser solidário não é tão somente confortarmos alguém na hora da fome ou do frio, há de sabermos também que com apenas uma palavra ou um segurar de mãos podemos fazer a diferença na vida de qualquer pessoa.
Ser solidário não é ser credor dos nossos atos de compaixão, a solidariedade sincera não tem memória, não cobra pelo agasalho dado, pela sopa na madrugada, pelo sorriso a quem sofre, pelo amor compartilhado.
A solidariedade sem memória faz corrente do bem para todo mundo porque é tão contagiante quanto o amor, tão profundo quanto à alegria de sermos parte da vida de alguém por tão somente fazermos do bem o concreto desse mesmo amor.
Ser solidário não é o mesmo que nos sentirmos santos ou bonzinhos, não é o mesmo que maquiarmos com rosas artificiais nossos dias de asperezas e egoísmos, mas aprendermos a lidarmos com nossas emoções, com nossas disputas internas entre o ser generoso e ser mesquinho, nos reconhecer como seres de vícios e virtudes.
Se é verdade que o mal desse século é a solidão e a profissão desse mesmo século e a psicologia e que no mundo já se consome mais ansiolíticos e antidepressivos que remédio para dor de cabeça é verdade também que estamos em rota de colisão com nosso próprio futuro e condição de pessoas, em pouco tempo, se não houver uma mudança de rumo, seremos apenas traços tristes do que desenhamos para nós como virtude, o que era  virtude será tão somente utopia a deriva nos nossos corações trêmulos de medos, naufragados em solidão.
Abraçarmos atitude solidaria não é abrimos as portas das nossas casas para quem nela bater ou sairmos oferecendo carona a estranhos, ser solidários é antes de tudo termos prudência social e prudência social é entender que a ferrugem carrega de maldade muitos corações, a solidariedade é o que acontece quando temos em nossos corações a certeza de que estamos fazendo o bem a quem não vai nos retornar com o mal.
Há um texto bíblico que diz que quando somos solidários devemos ser discretos, não se faz solidariedade para nos promovermos, para criarmos uma imagem altruísta da nossa personalidade e assim ganharmos alguma coisa com isso, ser solidário não é um investimento financeiro, político ou religioso é um lembrar sempre da nossa condição de gente e que gente é mais feliz quando a felicidade pode ser compartilhada.
A pele envelhece, a juventude dura alguns poucos anos, a pobreza poder virar riqueza e a riqueza pobreza, a fama acaba ou pode surgir do dia para noite, o amor pode se desgastar, a vida pode ser breve ou longa, o tempo um amigo ou inimigo, quem ama tão somente pelo  que os olhos podem ver certamente vai acabar sozinho porque o tempo envelhece todos interesses e abre os olhos daquele que é amado pelo que se tem e não pelo que se é.
O sexo bom esfria com o tempo, a energia da juventude acaba, a saúde é levada pelo tempo como um folhinha seca pelo vento, os olhos antes cheios de vida ficam quebrantes e tristes, a pele lisa já não retém mais o creme cheiroso, a memória já não se lembra do quanto se foi feliz.
O que nos realiza nesta breve aventura que chamamos existência é olhamos para traz e encontramos uma vida que se não foi grande ao menos não se fez menor na vida de pessoa alguma. Solidariedade é amar incondicionalmente qualquer pessoa que nada pode nos oferecer além de um sorriso bom com gosto de entardecer nos braços de quem nos ama mesmo quando o tempo nos levou o riso que em algum momento das nossas vidas foi encantador.




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