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Amaldiçoados filhos de Noé

Todo mundo sabe a história do triste personagem bíblico Noé que ao receber de Deus o aviso da destruição do mundo por um terrível dilúvio esse deveria construir uma arca e salvar sua pele, sua família e alguns animais. Noé não pensou duas vezes, construiu sua arca e quando veio o dilúvio se trancou nela com a família e os animais que escolhera. Noé é o símbolo máximo do individualismo, da falta de solidariedade e fé cega e demente.
Imagine Noé em segurança dentro da sua arca enquanto em sua porta pessoas desesperadas pediam socorro, pediam pelo amor de Deus que as deixassem entrar e lá dentro Noé ignorando tudo ou gritando: “morram seus pecadores, blasfemadores”. Crianças chorando desesperadas, morrendo lentamente afogadas e Noé gritando: “filhos do pecado”.
Infelizmente somos todos filhos de Noé, seja la qual for à religião, cor ou raça, somos filhos de Noé, egoístas como ele, dentro da nossa arca ignoramos a dor do outro, tripudiamos sobre o desespero das pessoas, mentimos em nome de Deus para justificar nossas loucuras, em nome de Deus matamos e ridicularizamos nossos semelhantes.
Somos filhos de Noé quando nos acreditamos divinos, escolhidos por Deus para santificar o seu nome enquanto ao nosso lado pessoas morrem de fome, de sede, nos permitimos as mais cruéis tiranias para garantir que nossa arca flutue enquanto muitas pessoas estão a morrer no desespero de não se ter o amanhã.
Somos filhos de Noé não importa o continente que nascemos, tripudiamos sobre as dores dos outros, achamos que nossas crenças e verdades inventadas sobre o signo da mentira nos tornam superiores aos nossos semelhantes. Somos como Noé, lunáticos que dizem receber de Deus a iluminação a qual nos livra de toda culpa de sermos predadores do planeta, destruidores da natureza, envenenamos nosso mundo com nossa saliva de ódio e prepotência.
Somos como Noé na nossa arca de mentira e ilusão, festejamos entre vinhos e banquetes as misérias de quem bate a nossa porta e deixamos que morram afogados em dor e angústias. Nossa arca moderna tem motor potente, ar condicionado e um motorista ao volante que ignora que em outro carro ha pessoas e vidas, nossa arca moderna tem a cor das notas do nosso dinheiro, somos aquilo que o dinheiro pode comprar, quem não consome é consumido na vela da indiferença social.
Nossa arca moderna usa livros religiosos para justificar o ódio e a desesperança, o terror e a morte, o crime e a barbaria, nossa arca moderna é o silêncio do medo, o desespero do presente sem sentido e futuro que parece sempre se repetir.
Somos certamente filhos de Noé, triste filhos de Noé que rezam a Deus dia e noite e não se lembram de algo simples: Deus é amor, se Deus é amor nunca deixaria seus filhos morreram afogados enquanto outros navegam em segurança nas suas arcas do preconceito, da vaidade, do egoísmo, da certeza que sendo únicos filhos de Deus os outros são apenas coisas que se afogam para glória de uma vida que se revela sem sentido.




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