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Os anjos

Irmã Dulce
E os seus anjos? Não digo anjos como entidades espirituais, falo de anjos de carne e osso mesmo. Quando eu era criança, por exemplo, chamam Irmã Dulce de “O Anjo Bom da Bahia”, Irmã Dulce era muito doente, tinha a capacidade respiratória reduzida, pequenina parecia ser feita de vidro e que a qualquer momento se quebraria, mas isso não a impediu de transformar um galinheiro em um hospital, o Hospital Santo Antônio, símbolo de uma das maiores obras sociais do país, que engloba creches, asilos e todo tipo de assistência social para qualquer pessoa que precise de ajuda.
Mãe Menininha do Gantois (se diz Gantuá) foi a mais importante e famosa  Iyálorixá (mãe-de-santo) do país, lutou em defesa da sua religião, estreitou as relações entre a Igreja Católica e o Candomblé, conseguindo que o povo do Axé entrasse nas igrejas para assistirem as missas vestidos com suas roupas típicas, isso é uma das marcas da Bahia, o sincretismo religioso.
Certamente a mais importante contribuição de Mãe Menininha do Gantois foi sua luta para que o povo de santo pudesse livremente cultuar seus orixás e realizar celebrações sem a perseguição da polícia.
Na década de 1930 para realização dos cultos nos terreiros era necessário autorização da polícia, com seu jeito de mãezona, certa vez disse a um delegado: “Isso é uma tradição ancestral, doutor, venha dar uma olhadinha o senhor também”. A frase angelical e carinhosa não revelava por completo a mulher vibrante que lutou em defesa dos seus e da liberdade religiosa, por tudo isso que Mãe Menininha foi também um anjo da Bahia e símbolo da mulher que não se aquieta diante das dificuldades.
Ana Justina Ferreira Neri nasceu em Cachoeira, cidade do recôncavo da Bahia tombada como patrimônio cultural do país. Durante a guerra do Paraguai solicitou ao governo da Bahia que fosse para a guerra servir como enfermeira, queria acompanha seus dois filhos e um irmão, um dos seus dois filhos morreu em combate. Ana Nery serviu bravamente como enfermeira durante o conflito.
Ao regressar da Guerra, Ana Nery, recebeu homenagens, seu nome foi eternizado como símbolo de mãe devota aos filhos, coragem, dedicação e solidariedade. Há em Salvador um hospital com seu nome, justa homenagem a uma mulher excepcional que fez da angústia de ver seus filhos e irmão partiram para o futuro incerto em uma guerra na oportunidade de ajudar e servir a salvar vidas.
Anita Garibaldi nasceu em 1821 no Rio Grande do Sul, casou-se com o lendário guerrilheiro italiano Giuseppe Garibaldi, os dois se encontram durante as lutas da Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos, os dois viveram juntos por toda vida, na Itália essa brasileira notável e seu marido são conhecidos como “heróis de dois mundos” pela participação em lutas revolucionarias aqui e lá.
Anita Garibaldi é símbolo de coragem, dedicação a causas libertárias, uma vida de extrema paixão. Em Salvador uma das principais avenidas da cidade tem seu nome, se um dia você for a Brasília vai poder ler seu nome no livro dos Heróis da Pátria, um livro de metal que fica no Panteão da Liberdade e Democracia.
Maria Quitéria de Jesus Medeiros, nasceu em Feira de Santa, na Bahia, lutou pela independência do Brasil, como não se admitia mulheres na guerra Maria Quitéria se vestiu de homem, usou o nome do cunhado e foi para o campo de batalha ajudar a expulsar os portugueses do Brasil.
Maria Quitéria lutou no batalhão dos Periquitos, tinha esse nome por causa dos uniformes verdes, o batalhão era comandado por Periquitão, avó de Castro Alves. Quando foi descoberta sua identidade verdadeira foi homenageada pelo exército.
Dezenas de mulheres seguiram os caminhos de Maria Quitéria, o exército criou a Companhia Feminina que tinha Quitéria como comandante. Lutando sempre nas vanguardas Maria Quitéria é uma personagem fantástica do nosso país, um anjo na luta pela afirmação do Brasil enquanto país independente.
"Para trás, bandidos. Respeitem a Casa de Deus. Recuai, só penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver." Depois de ditas essas palavras corajosas a freira Joana Angélica foi assassinada na porta do convento da Lapa, onde hoje funciona a Universidade Católica em Salvador, assassinada a golpes de baionetas por soldados portugueses, corria o ano de 1822 e as lutas pela independência do país acirrava-se. A freira Joana Angélica tornou-se símbolo de coragem, mártir pela independência da Bahia que veio abrir caminho pela independência do Brasil.
São muitos exemplos de pessoas que deram suas vidas para salvar outras vidas ou dedicaram suas vidas sendo exemplos de humanidade e fraternidade. Anjos de carne e osso.
Não precisamos martirizar nossas vidas para sermos exemplos, nos pequenos gestos ou ações podemos fazer muito a diferença, penso que todos os dias anjos bons cruzam nossos caminhos e nos ajudam. Somos também, sem notarmos, anjos na vida de tantas outras pessoas, assim, vamos seguindo nossas vidas... Fazendo dela algo além de comermos, dormirmos, reproduzirmos e morrermos.
   

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