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Bizarrices

A fila estava imensa na Saraiva, era uma tarde de autógrafo, alguém disse que a moça distribuidora de autógrafos era “uma gênia” sic. Cheguei mais perto, olhei a moça, não me pareceu “uma gênia”, era de carne e osso, mais carne que osso é bem verdade, cheguei no exato momento em que ela colocava um autógrafo na sua vagina, quer dizer, sobre a foto da sua vagina, a moça pousara nua em uma revista, o rapagão dono da revista, babava como um gambá no cio, reparei que ele olhava para a cintura da moça, creio que tentasse visualiza nela o que via na revista. 
Dias depois vi essa “gênia” da nudez em um programa de TV dizendo “o importante é acreditar no que se tem”, ela estava certa, com uma bunda daquelas até eu pousaria nu e diria frases de autoajuda em programas de auditório. Linda moça, uma boniteza comovente, uma bunda maravilhosa e olhinhos de anjos, mas tão fútil quanto um jornal de domingo lido na segunda feira. 
A senha para o sucesso: você sai de casa vestida maravilhosamente bem ao seu gosto, seu corpo é gostoso, o vestido colocado nele desenha uma maravilhosa paisagem  e vai para faculdade, quando entra na sala de aula leva uma sonora vaia de colegas intolerantes e cretinos. O que acontece? Você se torna uma celebridade, capa de revistas, é cultuada como uma nova Mary Quant.
Foi assim que Geisy Arruda se tornou uma das mulheres mais “celebres no país”, não pelas vaias que levou e a ótima oportunidade que teríamos para discutimos a intolerância ou violência contra a mulher, mas pelas suas curvas e corpo gostoso, o país parece não ter acreditado que alguém poderia ter censurado aquela gostosura toda ali exposta.
Outro dia Geisy Arruda apareceu dizendo que: “Esta terça- feira eu acabei fazendo uma das maiores loucuras da minha vida (...)! Mas não quero que o mundo acabe e eu tendo uma couve-flor no lugar da vagina!”. Isso mesmo, a Geisy deu uma repaginada na vagina. Essa cirurgia é indicada para mulheres que têm os pequenos lábios aumentados, a Geisy disse que tinha uma couve-flor no lugar da vagina, não consigo imaginar isso, mas couve-flor sempre é bem vindo nas minhas refeições, nada contra.
Ter os pequenos lábios aumentados não é necessariamente um problema de saúde, não impede a mulher de transar ou ter prazer, mas o estrago emocional pode sim derrubar a autoestima e nesses casos quem pode pagar faz a cirurgia reparadora, mas sai por aí gritando que: 
“Na verdade eu tinha uma relação muito conturbada com a minha vagina”, como fez a Geisy e ser tema por isso de dezenas de revista, programas de TV, recorde de audiência em redes sociais é melancólico, porque prova sem aspas o quanto o país envergonha aquele animalzinho que chamamos de burro, pobre jumento, que segundo Luiz Gonzaga é nosso irmão, não duvido disso, quem não é meu irmão mesmo é o “ couve-flor” da Geisy Arruda.



Em matéria de culto ao nada, creio que Salvador, Goiânia e Rio de Janeiro são imbatíveis. Salvador com seus grupos de pagodes que tratam as mulheres como lixo e elas adoram, porque os shows dessa turma são sempre lotados de mulheres descendo até o chão o que resta dos seus “couve-flor”, Goiânia inventou o sertanejo universitário, uma mistura de jovem guarda com forró e que acaba sendo coisa alguma, Rio de Janeiro, nada é mais curioso que o funk carioca com suas “ cachorras cantoras”, musicalmente não há definição, mas fazem sucesso, ganham grana e dizem que são felizes.
Sou a favor de qualquer tipo de expressão, mesmo que seja o couve-flor repaginado de um senhorita universitária, mas para mim assassinar a música sertaneja de raiz em nome do “ sertanejo universitário” é burrice, jogar para o lixo século de tradição cultural musical da Bahia em nome de grupos de pagode, é burrice, colocar o Rio de Janeiro como um dos maiores produtores de porcarias sonoras e relegar ao esquecimento toda uma tradição de samba herdada dos escravos baianos que libertos levaram o samba para o Rio é burrice.
Por trás de tudo isso há empresários que lucram muito, gente que tem como meta apenas ganhar grana e mais nada. Empresários da mídia burra: aquela gente que encontramos em restaurantes comendo como mortos vivos e falando de trabalho o tempo todo, atendendo mil ligações entre uma perna de frango e outra, gente sem sangue e sem calor, mas que tem o incrível talento de transformar bundas e couve-flor em milhares de reais, que sabem como ninguém explorar a burrice do povo, que sabe que índices de educação ruim é a desgraça para alguns e alegria deles que vão oferecer um cardápio fácil de ser digerido, um bando de empresários que sabem que quanto mais miserável culturalmente for um povo, mais vão ganhar com isso, incutem na cabeça do povo que ler bons livros é perda de tempo, que teatro é frescura, que boa música é difícil de entender, que cuidar de si e se amar é o mesmo de descer até o chão e ralar seu couve-flor na vala comum da burrice.
Quem não gosta de dançar sem compromisso? De olhar umas pernas bonitas? De falar besteira? De uma boa sacanagem dita aos ouvidos e sentida no corpo? De ri às vezes com as besteiras do Faustão? De dançar colado no roça roça do que chega perto mas não entra? Todo mundo tem seus dias de bagaceira, o problema é quando dias de bagaceira são todos os dias, quando o que o Faustão diz vira verdade, quando o Michel Teló é eleito personalidade do ano.
http://poesiaeguerra.blogspot.com






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