Imagine

Ouvindo “Imagine”, só o instrumental. A noite é fria e silenciosa, solidão absoluta, não adianta sentir saudades, essa noite, como quase todas, a solidão é absoluta, absoluta como quem dorme nas ruas nestas noites frias no litoral da Bahia. Fecho os olhos e posso ver o John dedilhando seu piano branco ao lado da sua Yoko, às vezes está acompanhado é uma das maneiras mais dolorosas de se sentir só... Às vezes, se estamos acompanhados e mesmo assim nos sentimos só é porque o nosso desejo de companhia passeia longe ou adormece em algum canto do nosso coração.
Disseram para o John que sua Yoko era feia, mas ele nem ligou, eles se disseram sim e foram felizes pelo tempo que ele viveu. Mesmo quando o John se foi a Yoko ficou com ele no coração, ficou de maneira diferente, porque no coração dela ele ainda vivia e tocava piano. Como é bonito saber que a morte é apenas uma meia verdade se somos amados por inteiro.
Não somos feios ou bonitos, somos apenas pessoas que fazem coisas feias ou bonitas, coisas são feias ou bonitas, pessoas são apenas pessoas. Se tudo fosse apenas feio ou bonito quando morremos seria nosso fim completo e ninguém pensaria em nós como a Yoko pensa no John Lennon.
Mesmo a solidão sendo a síntese de uma noite ou de um estado de espírito, penso que não se deve deixar de tocar aquele piano interno que o John tocava para sua Yoko, é preciso seguir o horizonte, a tristeza é o primeiro passo para depressão e a depressão o segundo para nos esquecermos de nós, aí poucas pessoas vão querer segurar nossas mãos, quanto mais olhar  nossos dedos dedilhando suave pelo piano interno da nossa alegria, aquela alegria que devemos lutar para nunca esquecermos que temos.
Quando noite sempre é tempo de pensar no amor profundo que desejamos tanto, eu quase não nada tenho de concreto, digo coisas de valor, coisas que Marx disse que se dissolvem no ar, mas sempre busquei aquela outra razão de vida, mais profunda e intensa: o amor.
O amor que toca piano para nós, vela nosso sono, nos faz acreditar que é possível sermos felizes, o amor que deita ao nosso lado e pensamos que o mundo nos abraça, o amor que Vinícius de Morares disse que deve ser eterno pelo tempo que durar, o amor que nos ensina, se preciso for, como comprar um cobertor para o frio das noites longas de inverno, o amor que não nos dá o pão, mas o trigo e água para fazermos nosso pão de cada dia.
Hoje a solidão é absoluta, mas ela não é maior que o estado premente de busca. Nada é mais exato quanto sabermos da alegria carne e osso que em algum lugar nos diz: você é importante.


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