Junho e seus licores

Meu mundo é o mundo do norte, vivo do lado de cima do país, bem verdade às vezes parece o mundo de baixo, porque tudo aqui parece de cabeça para baixo, o mundo de cima é norte, muita gente marcha para o sul como aves em busca de pouso, eu fiquei, vou ficando. O norte às vezes é bonito como o sul que às vezes parece parte de nós e é tão distante, se Deus é bonito os pássaros que passam todos os dias às seis da tarde pelo meu quintal também são, eu posso vê-los, ouvi-los, todo pássaro é meio solitário, todo pássaro busca seu ninho, com esses poetas antigos que escrevem poemas entre o desespero do dia e a paz da noite.
Quando criança meu pai me levava para Barra em Mundo Novo, íamos à casa da minha bisavó lá tinha pés de manga que meu pai um dia plantou, era bom chupar mangas tiradas no pé, se fechar os olhos lembro-me daqueles dias felizes com nitidez, então aqui no norte temos dias felizes também, mesmo que sejam apenas lembranças, brincadeira, aqui também temos tempo presente de felicidade.
O lado norte do país é uma mistura de África e Europa, mas com gosto de mundo todo que também parece mundo algum, parafraseando Cecília Meireles, não somos nem alegres e nem tristes, somos apenas um povo que guarda em si traços e cultura de muitos povos antigos, muito mais antigos que nós.
Junho chegou, com ele aquela alegria no ar, cheiro de amendoim, licor, forró, amigos visitando a cidade... Junho é o mês dos santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro. Quando criança não gostava de São Pedro, tudo porque um dia meu pai me disse que Pedro era o padroeiro das viúvas e viúvos e por isso não acendia fogueira para ele, meu pai fazia fogueira de São João.
Lembro quando criança no Prédio da Leste, onde passei minha infância, de uma festa de São João, corríamos pelo prédio eu , Lindomar, Idelmar, Nego, Ciê, Héli, Ivan e seu saudoso irmão Bilú, nunca mais esqueci aquela noite, não teve nada demais, apenas crianças correndo de um lado para o outro gritando: viva são João!!! Neste dia passei à tarde “ajudando” seu Zinho, pai do Del e Lindo a carregar madeira para fazer as fogueiras, imagens doces da infância.
Alguém disse que nordestino é como judeu, tem em todo canto, e é verdade, uma amiga minha visitou São Paulo me disse: “Ney, vi de quase tudo, menos paulista ou paulistano, todo mundo que conheci era nordestino, às vezes por cima, às vezes por baixo, mas sempre nordestinos”. Somos os judeus do Brasil, errantes, sem pouso certo, às vezes por cima outras por baixo, fazendo da palavra alimento, da arte eterna carta de abolição, da política prisão para os nossos , somos os mais tristes e mais felizes “judeus” do mundo.
“O balão vai subindo, vai cair na lagoa, o céu é tão lindo e a noite é tão boa, São João acende a fogueira do meu coração”. Imagens doces fazem a sobremesa feliz das nossas vidas, a ciranda que encanta por girar para o lado não sul ou norte, mas para o lado que são todos lados, todos os lados nos quais a paixão nos trilha para o bem.
Do que vale uma vida sem paixão? Me traga o banquete louco dos amores insanos, desses que põe fogo em nossos cérebro, quero é me embriagar no ventre da mulher amada, como escreveu Castro Alves, a mulher amada que beberei o doce vinho sobre seu corpo no junho de frio.
Sejamos a festa simples de todos os dias, assim como Cazuza “transformar o tédio em melodia”, porque da vida breve que somos só nos cabe o delicado encontro que ao menos em nossos corações é definitivo...Porque paixão boa é paixão que nos ata, assim como o céu as estelas, a lua o sol, a palavra ao dizer, o amor ou desejo.
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