Pular para o conteúdo principal

Uma bibliografia possível*

Muitas pessoas e personalidades fazem parte do mosaico que sou. Pessoas são gente que convivi ou convivo, personalidades são pessoas que nunca encontrei, mas suas histórias, talentos e vidas de alguma maneira tiveram sobre mim influência. Quando eu era criança, por exemplo, gostava de Amado Batista, Sérgio Reis, Paulo Sérgio e filmes com Roberto Carlos que passavam na Sessão da Tarde da Rede Globo, adorava também a música afro da Bahia, Olodum e Ilê Aiyê eram expressões artísticas que me tocam muito, tanto que meu primeiro contato com artes foi tocar no bloco infantil “Força Negra” em Santo Amaro, eu adorava o som forte dos tambores.
No comecinho da adolescência toquei em outro bloco afro, o “Ogundelê”, acho que é assim que se escreve. Para um garoto sertanejo, o som dos tambores afro-baianos era algo diferente, quente, distante da contida alegria dos povos dos sertões, minha mãe não gostava muito da ideia, mas eu fugia para ir ao ensaio dos blocos.
Não demorou muito para minha inquietude pedir outros “alimentos” culturais, até que um dia ouvi na Itapoan FM, um cantor chamado Edson Gomes, foi encantamento imediato, Edson cantava reggae e aquele balanço com aquelas letras sociais me pegaram de jeito, me identifiquei na hora, para completar temperei tudo com Bob Marley, tive muitos LPs dele e adorava sua música.
Entre os oito e dezesseis anos essa foi minha toada cultural. Politicamente tudo mudou quando encontrei Josane Peer, cantor e compositor que me apresentou o PCdoB, naquele tempo partidos de esquerda representavam esperança e não esse lugar comum que hoje ancoraram suas degenerações políticas.
A voz mais vibrante da minha geração em termos de política não foi o Lindbergh Farias, aquele mesmo que era presidente da UNE nos tempos do Collor, nossa voz era feminina, a Deputada Estadual Alice Portugal, jovem, razoavelmente bonita, inteligente e com um discurso de fazer tremer o chão nos arrebatou e incendiou de vez nossa geração.
A voz musical, claro, foi a Legião Urbana nos tempos do “Fora Collor”, não votei nem no Lula e nem no Collor, ainda não podia votar, mas acompanhei de perto os tais “Caras Pintadas” e os achava uns babacas, sabia que por trás deles estava o PCdoB, meu quase partido, entrei algum tempo depois, não gostava da ideia seguir cegamente qualquer coisa sem o viés da crítica e reflexão intelectual, mesmo o que eu simpatizava, sempre vivi política com essas contradições, só podia sair tudo errado e saiu mesmo.
Aí morreu meu pai, do dia para noite passei a ser pai e irmão dos meus irmãos, vem o Teodoro Sampaio, escola de ensino médio onde estudou Caetano Veloso, escola mítica e que agora agoniza de tão triste e por falta de alunos. No Teodoro minha geração vivi intensamente os anos de 1990: Josane Peer é eleito para o grêmio estudantil, eu seria secretário de cultura, nunca nos deram posse, a cidade é efervescente, parecia que o mundo seria nosso, surgem bandas de rock, novos poetas, artista plásticos. E preciso ler Augusto dos Anjos para aguentar o desmoronar lento dos sonhos.
Chega os dezoito anos, vou trabalhar em uma fábrica de papel, minha primeira grana ganha como proletário, vou direto ao Palácio dos Discos e compro “ As quatro estações” da Legião Urbana, leio Machado de Assis, comprei na mão do poeta Jorge Boris o livro “ Dom Casmurro”, Boris me disse: “ Há um mistério neste livro”. Li e não encontrei mistério algum, só tempos depois soube que o mistério era a tal história se Capitu traiu ou não o marido, tanta coisa boa no livro e todo mundo se prende a isso.
Sempre trabalhei, desde os dez anos de idade, mas com carteira assinada na INPASA( Indústria de papéis Santo Amaro foi a primeira vez) foi com orgulho que li na carteira: Ajudante de serviços gerais, enfim um cidadão contribuinte para as grandezas do país, acredite, eu pensei isso mesmo: “ grandezas do país”.
Encontro uma namorada e fico dez anos com ela, depois mais uma e mais dez. Vou envelhecendo e descubro que como Dom Casmurro são um homem de poucos relacionamentos e relacionamentos longos.
Voltamos aos dezoito anos, frequento a Praça da Purificação, adoro passar as tardes e noites no Chafariz com os camaradas tocando e bebendo algum vinho barato nos fins de semana, mas trabalho, sou um dos poucos chegado ao trabalho, mas hoje todos são cidadãos trabalhadores para “as grandezas do Brasil”.
Vi alguns camaradas começarem a usar drogas, e vi a tristeza chegar aos olhos de cada um, não uso drogas ilícitas, nunca usei, mas gosto de beber, não podia usar drogas, não por mim, mas por minha mãe, não poderia fazer isso com ela, segurou muitas ondas minhas e segurar de um filho drogado nunca!
Graciliano Ramos começa a frequentar meu quarto, compro na rodoviária de Salvador o seu livro “Angústia”, compro enganado, penso ser um livro de auto-ajudar, santo engano esse meu, nunca mais larguei o Graciliano Ramos.
O tempo passa, vou para universidade de?   Letras!!!!  Se considerarmos que o vestibular é um concurso público foi o único que passei e assumir até hoje, foi um bom tempo, fato é que ganhando pouco ou não depois que me formei fiquei poucos períodos sem emprego, mas o desemprego é um fantasma constante.
O PT vence as eleições na Bahia, é festa, assumo um cargo importante, deixo dois anos depois, vou ser secretário de educação em um governo Ptista, saiu três meses depois, descobri que o grande projeto não era educar pessoa alguma, havia algo errado e não podia compactuar. Resultado? Quase dois anos sem trabalhar, até que a professora Valdeci Edingtn me consegue a dura pena um emprego em uma prefeitura governada pelo PCdoB, fazia quase de um tudo: nada, limpeza, atendimento ao público, limpeza, nada.
Nasce minha filha, sozinho e abandonado pelos ex: camaradas que insistiam em me chamar de traidor, me isolei um pouco do mundo, ficaram alguns poucos amigos e a força de reação que pouco a pouco foi me colocando na ordem do dia. Não se sai impune quando se cospe em estrutura como a do PT, e sendo pobre, como eu, piora tudo.
Nada de lamentações, para frente... Lendo biografia de empresários, artistas, vendo muitos filmes, lendo livros de Ricardo Semler e buscando organizar as ideias. Elicio Juca, um velho conhecido, me leva para trabalhar na Unifacs, já se passaram alguns anos e foi uma mão boa para um recomeço mais seguro, já faz alguns anos que estou lá.
Escrevi muito, publiquei livros que quase ninguém leu, não chorei, vivo, amei, amo. Tive infeliz ideia de ser candidato a vereador pelo PV, mas acabou tudo bem, para minha sorte não fui eleito. Estou bem, gosto da Mariana Silva vou votar nela e em Hilton Coelho para deputado, senador talvez anule, não sei. Não me interesso mais por política como antes, tudo que tinha para falar sobre escrevi no meu livro “Os deuses não são socialistas”. Chega né?
Como escreveu Castro Alves quero é os beijos da mulher amada. Envelhecer tranquilo, minha juventude foi intensa e produtiva, agora é tempo de calmaria e amores sinceros.
Estou bem, em paz, minha filha é linda, meus passos estão mais leves, agora me interessa, como na música de Belchior, “amar e mudar as coisas”. Escrevo tudo isso aqui para no futuro minha filha ler, falam muitas coisas de mim, aqui estão algumas versões dos fatos, há tantos outros que ela mesma vai descobri, algumas verdades transformei em mentiras e algumas mentiras em verdades, quem vive apaixonadamente a vida não fica impune, aprendi que o amargo às vezes pode ser melhor que o doce... Estou feliz, incrivelmente feliz.
* Ao meu lado na foto o camarada Charque, já falecido, um dos camaradas mais incríveis e sinceros que conheci, me conhecia desde que eu era criança e depois militamos juntos no Partido Comunistas, aqui em uma passeata com trabalhadores rurais há uns dez anos.
http://edineysantana.zip.net                                
ediney-santana@bol.com.br



Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…