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Carta para daqui a 50 anos


Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!!
Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo.
Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda invisibilidade.
Não quero carro, mas se tiver grana compro o melhor que tiver, não quero apartamento grande, mas com grana compro um com espaço suficiente para mim, algum amor que talvez  encontre  e deseje viver essa aventura através das décadas, não quero poder ou fortuna, quero antes de tudo serenidade para os dias não de sol, mas aqueles de frio  e cinza que sempre perturbaram minha cabeça.
Eu do ano de 2063, não pense que meus desejos de hoje são bobocas, você vai lembrar que nunca fui apegado a coisas materiais, quero apenas ter o suficiente para poder ir a Ouro Preto, Mariana, Paris, Crato, Juazeiro do Norte, Pequim, Itália, New Orleans, comer feijão com arroz com minha mãe velinha, ter assas como João Gibão, personagem criado por Dias Gomes na novela Saramandaia. Eu de 2063, ando tão cismado com tudo, mas não paranoico, gosto mesmo é desse encontro marcado entre eu e você sempre pela manhã e algumas madrugadas de insônia em que a cama parece ter urtigas.
Estamos em algum dia de 2040, estou bem, Renata Maria veio me visitar, fiz um balanço no quintal, daqueles de criança, só que para velho, ela reclamou que estou com cheiro de livros velhos, achei exagero, doei quase todos meus livros para biblioteca e uso o mesmo perfume de 2013 (Musk/Avon), fizemos pipoca, ela me falou dos seus planos, mostrei minha luneta nova e algumas estralas que tomei posse para mim.
Eu de 2063, você ainda gosta de música? Ainda tem coração romântico? Meio besta que acredita até que amor vem em caixinha de bombom? Espero que não, isso me trouxe problemas e deu trabalho chegar até você. Ando meio triste esses dias, mas confiante, quando você se olhar envelhecido no espelho, não pense que fiquei parado esperando as coisas melhorarem.
Eu de 2063, você ainda tenta fazer poesias? Dorme com o rádio ligado? Sonha com jardins, vulcões e serpentes? Ainda tem insônia? Comprei hoje duas camisetas brancas, um analgésico para dor de cabeça e vou sair para ver Renata Maria.
Não fique muito só em 2063, fica mais leve, não tenha causas em excesso, é bom ter uma religião, ateísmo não combina com pobre, se é que você ainda é pobre, se não for, nada de se envolver com religiões bestas, dessas que dizem expandir a mente, mas não faz o sujeito ser gentil com o porteiro do prédio que mora.
Eu de hoje prometo: vou me cuidar mais, amarei serenamente, não gastarei grana com coisas ou pessoas  que não vão me levar a lugar algum, não viverei em excesso, não cultuarei nada que me pareça inútil, juro: serei aprovado em concurso público, cuidarei das nossas coisas, abrirei uma caderneta de poupança, farei meditação, não deixarei os cabelos longos quando ficarem brancos, não serei mais candidato a porra alguma e se até aos 45 não tiver alguém ao meu lado assumirei de uma vez por todas o celibato. Agora o que quero de você aí em 2063:
Não deixem te colocar em um asilo, Renta Maria, não permitiria isso, mas fique atento, não entregue nossos manuscritos a pessoa alguma, se a Renata não tiver interesse por eles, deixe na biblioteca Central, não fique correndo atrás de menininhas é feio para nossa idade, não se meta em confusão política, não beba, não use Viagra e afins , não fique andando pela noite, pague uma diarista para limpar nossas coisas, se estiver casado, cuide do nosso amor como fosse namoradinhos, saia com ela, faça todos momentos dela extremamente felizes, quando for a hora da nossa morte, não avise a ninguém, deite e se vá, deixe uma carta de amor para pessoas que amamos, deixa pago a lápide do cemitério com a seguinte inscrição: “amou, foi feliz e viveu intensamente tudo aquilo que acreditou” .
Eu de 2063, vá a Mundo Novo, visite a Barra, certamente não vai encontra mais pessoa alguma conhecida, respire o ar da nossa infância, feche os olhos e escute a voz da nossa vó Erundina, do vô Leó, dos nossos primos e tias e tios, respire fundo e diga. Eu de 2013, você estava certo: fomos felizes.
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