Enxergando com o coração

Foto: Jane Santana
Se é verdade que o essencial é invisível aos olhos, como escreveu Antoine Saint-Exupéry, a vida de Sônia de Jesus nos serve bem como exemplo disso, enxergando menos de 5% em um dos olhos (do outro é completamente cega) Sônia é a metáfora perfeita para outra velha frase: “querer é poder”, e se o querer algumas vezes não for suficiente para vencer as dificuldades, sua força interior faz dela especialista em contornar montanhas, se estas insistirem em não saírem da frente.
Em 1999 eu era um professor em início de carreira, cursava Letras na Universidade Estadual de Feira de Santana e fui trabalhar como professor substituto no Centro Educacional Teodoro Sampaio no curso de magistério, ao entrar pela primeira vez na sala encontrei mais de quarenta meninas e apenas três garotos, entre as meninas estava a Sônia, foi cordial comigo, me fez ficar tranquilo, notou o quanto estava inseguro.
Minha insegurança naquela turma se deva por não ter feito o curso de magistério, estudei química na mesma escola, tudo que sábia sobre lecionar estava aprendendo no curso de letras, o medo de errar com as alunas e alunos, comigo mesmo e decepcionar minha amiga professora Fátima Figueredo, responsável pela indicação minha para o emprego me apavorava. Não gosto de frustrar quem por algum motivo aposta ou enxergar coisas boas em mim.
Lá estava eu, entre aquelas meninas e meninos, alguns da mesma idade minha, outros mais jovens, outros mais velhos e entre eles a Sônia, dedicada , bem articulada e cheia de planos, me dizia que queria ir para o Rio de Janeiro, creio que foi. Naquele tempo Sônia não tinha nenhum problema de saúde, enxergava bem, tinha tudo para realizar seus sonhos um a um, havia vida nos seus desejos.
 Taise Verlane, Maria Solares, Jane Santana e Sônia
Antes do fim do ano deixei o curso de magistério, foram poucos meses que me marcaram profundamente, ajudaram a definir o que ainda hoje sou em sala de aula. Perdi contato com a Sônia, cada um foi construir sua história, fazer de sonhos verdades concretas, enfim viver. Muitas voltas foram dadas, trabalhei em muitos lugares, alguns inesquecíveis ou esquecíveis.
Em 2012 ao entrar na sala da diretoria da Unifacs/ Santo Amaro, ouvi uma voz me chamando: “e aí gato?”, era a Sônia, exatos treze anos depois, perguntei o que fazia ali, ela me disse que estava feliz, foi aprovada no vestibular para o curso de pedagogia. Estava feliz, digo que até emocionada de poder cursar uma universidade.
Sentamos, ela me falou das montanhas que teve e tinha que contornar para aquele dia ser possível. Depois de uma diabetes perdeu praticamente toda visão, só enxerga como disse, agora 5% em um dos olhos, perdera sua filha querida  e agora encararia um grande desafio, fazer um curso EAD, mesmo com a deficiência nos olhos.
Três semestres depois Sônia é uma das alunas mais dedicadas do curso, suas médias são altas, nunca perdeu um semestre, para ir aos encontros presenciais e responder as provas muitas vezes conta com a ajuda da Maria Solares, colega de turma que faz a leitura em voz alta das questões para que a Sônia possa responder e além disso,  a conduz da sua casa até a sede da universidade.
Nunca ouvi a Sônia maldizer a vida por ter perdido a visão, pela perda precoce da filha, é uma pessoa solícita e querida, nunca demostrou mágoas com a vida, raiva ou revolta, não reclama das atividades, segue toda programação, sabe-se capaz, é uma rara pessoa, uma força que aflora naturalmente de dentro e explode em forma de encanto permanente com a vida não importando o quanto o momento esteja difícil, nada parece abalar sua certeza de felicidade, nada a faz vacilar do seu objetivo de ser pedagoga e como professor, faltando dois anos e meio para sua formação eu digo: será uma brilhante pedagoga, quem transformar dificuldades em energia para a batalha constante que é viver não faz par com a mediocridade.
Meu reencontro com Sônia tantos anos depois me enchem de esperança de que podemos sim fazer um país tão melhor e tão mais nosso, que pouco importa os ventos contra se de dentro de nós vem àquela força inexplicável que nos faz enxergar tudo com os olhos do coração.


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