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Eva, sempre

Deus criou Adão, Deus notando a solidão de Adão, criou Eva, mas como Adão poderia se sentir só se não havia experiência de solidão? De companheirismo? Deus não foi tolo, já fez Adão programado para sentir falta do que nunca teve. Adão já nasceu procurando sua cara metade, mesmo sem saber que cara era essa, então para garantir tudo desse certinho, Deus tirou do próprio Adão o que ele tanto procurava, ou seja, Eva é o próprio Adão revistado em carne feminina, toda mulher seria um pouco homem e todo homem um pouco mulher. Deus era membro de algum colegiado acadêmico, desses que promovem doutorados para nos provar que o Tietê é um rio poluído ou tentar nos convencer que o Oswald de Andrade foi algum dia poeta.
No paraíso não havia essa coisa de discutir relacionamento, DRs, Eva assim que “nasceu”, já nasceu adulta, pronta para amar e mandar, disse logo ao que veio, Adão era meio tolo, sua outra metade era mais forte, não ficou naquela de paz e amor com Deus, viu que também poderia ser Deus, mostrou a Adão as maravilhas do sexo, do beijo e como poderiam ser felizes sem um Deus os olhando ou dizendo o tempo todo o que fazer.
Eva tirava o sono de Adão com aquela história de que ele tinha que trabalhar a terra, construir uma casa, matar alguns animais para usar a pele como roupa e se vestissem com mais elegância, às vezes Adão sentia saudade da sua solidão, mas tudo aquilo valia a pena, Eva era quente como lã de carneiro, amiga como um casal de arara azul, Eva sabia fazer cafuné e ensinou Adão a fazer chá de hortelã, por tudo isso Deus ficou furioso e expulsou os dois do paraíso.
Eva teve filhos, um matou o outro, Eva trabalhava e Adão coçava o saco, reclamava que Eva não era mais quente como lã de carneiro, reclamava que ela não mexia mais na cama quando ele subia nela com delicadeza de um rinoceronte no cio, Eva finalmente ficou triste, calou-se, Eva não sentia, apenas vivia como uma arara azul que perde o parceiro.
A soma de dois, deve ser sempre um quando se trata de casais, amigos, irmãos, pais e filhos, relação de trabalho. Nunca se deve somar para anular, mas para multiplicar, cada um sendo o outro deve sempre ser si mesmo e não cair no erro de se transformar no objeto de fantasia de outra pessoa, como na música de Vital Farias "o real e a fantasia se separam no final" e é bom lembrar sempre disso. O tempo é implacável com tudo, de milhões e milhões de pessoas no mundo poucas são aquelas que irão além da memória dos seus, somos quase nada para história da humanidade, parte do gênero em meio a essa multidão de tantas outras pessoas como nós.
Émile Durkheim em seu “As regras do método sociológico” escreve algo espetacular que vale a reflexão: “Qualquer indivíduo é um infinito, e não se pode esgotar o infinito”. Cada um de nós é um infinito, somos um gigantesco complexo de emoções que só encerra-se com a morte, somos uma das maravilhas da natureza e quando nossa vida se faz parte na vida de outra pessoa algo espetacular acontece, nos abrimos ao mistério do outro e o outro nos revela suas emoções, mas  não nos esgotamos nesse encontro de mistérios, não podemos abraçar tudo que o outro é, porque nem ele mesmo sabe tudo de si, então vivemos o que nos traz o melhor de nos encontrarmos na possibilidade de sentirmos para além de nós.
Nem Eva ou Adão, apenas pessoas comuns capazes de construir com as próprias mãos o paraíso sonhado, e construir esse paraíso não será como colher flores, há de se ter algumas dores e calos nas mãos, há de se ter algumas angústias e ao fim espera-se que tenha sido algo de bom e sincero, será, quem sabe, Eva sabia, Adão nem tanto.





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