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"A condição indestrutível de ter sido"

 Ao ler o título de estreia em livro impresso, já que ela escreve em blog, de Helena Terra: "A condição indestrutível de ter sido", lembrei de outro título primoroso de livro: “A insustentável leveza do ser” do celebre Milan Kundera. O livro de Milan Kundera nos apresenta os personagens de Tomas, Teresa e Sabina que vão vivendo seus dramas, paixões e tentativas de fuga do próprio universo, no livro de Milan Kundera ser livre é não ter amaras é ser pleno de si no distanciamento das penas impostas pela sociedade o que fatalmente leva a conflitos existências profundos.
Tomas é um cara jovem, livre, é a personificação de um ser leve por não ter amaras, vive a vida pela vida, um anti-herói em uma sociedade que nos vende a prostituição e depois nos cobra santidade. Tereza é o avesso de tomas, é uma mulher sensível que ainda acredita no amor mais que na carne, trabalhava em um bar de quinta categoria, um dia encontrou Tomas, sentado em uma mesa desse bar lendo um livro e pela palavra a magia se fez, Tomas era diferente dos outros clientes, gostava de ler.
Sabina é a antítese de Teresa, parecida com Tomas, é ela que vai nos mostrar que não se sustenta leveza por muito tempo, a leveza do ser é frágil, Sabina procura ser tudo que acredita, mas nunca se encontrar, disso nasce o ser sem leveza, oscilando entre a doçura e doses generosas de loucuras. Sabina é a dose mais próxima do que somos, a leveza que buscamos e que por fim nunca encontramos.
Esses três personagens vivem todo peso e busca pela leveza que talvez em algum momento todos nós enquanto seres podemos encontrar, mas nunca ficarão impunes a insustentável leveza que ter exata consciência de quem se é, se é que se pode ter alguma exata consciência sobre isso.
 “A condição indestrutível de ter sido" de Helena Terra nos aproxima de Milan Kundera, quando nos apresenta a insustentável leveza de amar mesmo aquilo que não nos corrói em rotinas desgastantes, o livro de Helena nos fala do amor nascido em leituras de blogs, a palavra escrita como carta convite ao amor que aparentemente não precisa da carne para se materializar, mas que traz as mesmas angústias de relacionamento convencional.
O convencional nos traz a ideia de segurança porque tudo foi gestado segundo os preceitos de Deus, família e pátria, o amor nascido virtualmente traz um quê de pecado, luxúria, medo ansiedades, no entanto Helena Terra nos revela que amor sempre é “virtual”, a presença pode ser concreta, podemos transar loucamente com uma pessoa, mas o seu amor sempre será algo éter, talvez nunca vamos ter certeza de que somos amados com a mesma intensidade que amamos, é aí que o ser vai sendo destruído por aquilo que deveria salvá-lo.
Encontrar alguém na rua, trabalho ou em um coletivo, pode levar a impressão errada que essa pessoa mereça mais atenção e respeito do que uma encontrada virtualmente, ao acaso pela internet e isso também vai pontuar a narrativa, o que se espera e pode-se esperar de alguém que nunca vimos? O que o respeito, quem somos nós? Por que somos capazes de amar quem nunca viemos? Como somos capazes de fazer sexo e gozar com alguém sem nos tocarmos? Problemas filosóficos discutidos na trava da de Helena Terra e na busca dos seus personagens para não ver o ser de cada um sendo destruído.
Helena Terra e Ediney Santana
“A condição indestrutível de ter sido" nos diz que amor é sempre amor não importando como se manifeste, o amor virtual que une os dois principais personagens do romance de Helena Terra, traz em si angústias reais e dramas não menos concretos, podemos viver o bem do amor mesmo tendo nascido apenas de leituras de cartas, poemas ou e-mail, mas amar nunca foi uma pena leve e suave, amar é invasão, invadimos e nos deixamos invadir, nos salva a solicitude e coragem que temos para viver tudo isso, sem essa coragem para cruzar tempestades o amor nunca chega a envelhecer, como nos diz o Padre Antônio Vieira.
Mauro, personagem que aparece na narrativa só pela voz da narradora do romance de Helena Terra, é um cara casado, mas que consegue tocar profundamente a narradora da história: “criei para nós um céu de palavras e habitei com uma atmosfera carregada de esperanças e verbos. A esperança e o verbo eram o meu ar, as minhas nuvens, o meu amor”. Veja que a narradora usa palavras como “ar”, “nuvens” para dizer do bem que seu amor faz, palavras “virtuais” coisas não concretas, nos dias que a esperança e o verbo é o seu amor, a esperança é o que desejamos quando estamos passando por tempestades, o verbo a palavra que pode trazer consolo, o amor da narradora anda  em nuvens, não no consolo da terra.
E a personagem vai idealizando não só o amor, mas o sexo com Mauro: “em cada e-mail, traduzir-me. E receber os meus gozos, a minha volúpia muito além da gramática de nossas falas” A palavra faz a personagem transbordar em desejos, sentir como se o Mauro pode ser presente nela, fazê-la sentir prazer, mesmo sem que ele esteja ali, essa sensação de tomada de posse do seu corpo, vai lentamente correndo a condição indestrutível do ser que a narradora pensava ter.
“Ele e eu havíamos organizado as sílabas do nosso futuro. Mauro era o meu e eu o dele”, quem organiza futuro quer dividir vidas, e não se se divide vidas virtualmente, vidas é a rotina, e é isso que a narradora quer, dividir com seu Mauro uma vida além das sensações causadas por e-mails, essa vontade de trazer para o concreto algo que existe apenas nas suas emoções pede também certa dose de maturidade, para que como na música de Vital Farias notar sem crise  que o real e fantasia se separam no final.
E o virtual não basta, então: “Quero mais fotos! E quero te ver! Vamos marcar um encontro? Eu te amo”, diz Mauro em um e-mail, agora é um momento crucial, o encontro, sair da frente do computador e se permitir a realidade sem rascunhos, a realidade do cheiro, do toque, dente carne e osso. A narradora pensa, não só em amor, mas em sexo: “Eu queria ser o jardim regado pelo jorro da sua masculinidade / Havia em cada um a promessa de amor e de sêmen sobre os meus suspiros, nas minhas costelas, dentro da minha boca e em meu ventre.” O sexo completa ou amor, corpos que se entendem, amor que se amam, e assim se faz a dualidade de ser e se prometer ao que não sabemos exatamente o que somos e para quem somos.
Ediney Santana, Helena e Marcelo Terra
Nada sempre quase é como desejamos, encontros podem ser desencontros, e a personagem central do livro provou mais do desencontro que encontro, foi para cama com outra pessoa que não o Mauro, sentiu-se vazia, objeto, se desesperou e não viveu intensamente o que seu coração insistia em dizer ser possível. Lamenta-se: “A indestrutível condição de ter sido por alguém um amor perdido”, se perdeu? Encontrou-se? O que fica de intenso amor, vivido profundamente em emoções e desejos?
A internet traz uma maneira nova de nos relacionarmos, mas tudo que é novo, pode nos trazer tanto excesso de  instabilidade como de certezas, recortar o outro como se esse fosse um boneco e enchê-lo apenas das nossas expectativas, sem deixar margens para que revele suas inquietações e buscas, nos deixar mais inocentes para além da nossa inocência natural. Saber dos defeitos pode ser mais salvador que saber das virtudes.
Certo é que nunca é pouco lembrar que não falamos com uma máquina, do outro lado há uma pessoa de carne e osso, com todas suas verdades e mentiras também, o livro da Helena Terra reflete sobre isso, nosso ser pode ser sim destruído não pelo outro, mas pelas carências das nossas emoções.
Mais informações sobre o livro aqui: www.dublinense.com.br

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