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“Aqui é vida real”


Hoje acompanhei uma estagiária do curso de letras em uma aula. A escola pública, alunos sem perspectiva e a constrangedora constatação de que há um abismo entre o que se aprende na academia e a realidade moribunda da maioria das nossas escolas. Era uma turma de 6ª série, a professora perguntou: o que é um verbo? Dos 49 alunos nenhum sabia, teve um que perguntou: eu é verbo professora?
Uma geração inteira sem verbo, sem ação, paralisada pela incapacidade de entender a si mesma, em litígio com a gramática interior que todos nós trazemos, aquela gramática que nos inquieta e nos chama para vida. Aqueles alunos não vivem a vida, apenas estão no mundo, sementes jogadas ao acaso na incubadora do mal que é a sociedade brasileira.
Que nos dera que “eu” fosse verbo, seriamos o “eu” da ação, da luta, da busca por uma vida não com esperanças, mas com realizações, quem nos dera que “eu” fosse verbo, conjugaríamos “eu” em primeiríssimas pessoas, seríamos nação e não povo, a covardia não seria nossa carta de visita diante as mazelas nos tristes olhos de alunos mantidos em ignorância por um estado criminoso, quem nos dera que “eu” fosse verbo, seriamos as tais pessoas de todos discursos gramaticais, conjugaríamos eu + você sempre igual a nós, não viveríamos ilhados na tristeza da impotência e do medo.
Enquanto a estagiária se esforçava para que fosse entendida pelos alunos, muitos riam, passaram a aula rindo, não um riso de alegria, mas um riso vazio, desprovido de alegria ou prazer, um riso torpe, fútil, um riso tão amargo quanto à constatação que falta mais que gramática, falta vida objetiva no ri daqueles alunos.
Os alunos estavam naquela sala fazendo a famigerada recuperação paralela, porque não conseguiram na unidade média mínima para aprovação, mas ao fim do ano a ignorância de cada um será recompensada com a aprovação para a 7 ª série, eles até vão festejar, seus país vão oscilar entre comemoração e indiferença do avanço dos seus filhos para a 7ª do nada.
Quando forem fazer o ENEM, o governo vai oferecer para todos, o “maior” programa pedagógico desse país “ as cotas”. Defendida por entidades e ilustres defensores dos direitos humanos e dos fracos e oprimidos, as cotas é a “reparação” para anos de segregação racista, política e cultural dos nossos alunos, dizem eles tão intolerantes no dizer quanto o governo e seus crimes pedagógicos.
Se eu ou você ficarmos contra esses ilustres defensores dos direitos humanos e entidades, defensores das cotas, vão simplesmente nos chamar de racistas ou elitistas, no entanto duvido que seus filhos estudem em escolas como a que visitei hoje. O Brasil é viciado em índices, numero, pessoas não contam, sentir a dor daqueles alunos não faz parte de governo, querem números para apresentar em suas palestras medíocres para plateias idiotas sem reflexão.
Pouco posso fazer, em minhas mãos não há poder de ação, sou grão de areia, cisco pedido pelos corredores das escolas, mas sei que o governo sozinho não é agente do mal, infelizmente nas escolas muitos professores são parceiros nisso tudo, outros são reféns, reféns como nossos alunos e seus risos vazios.
Quando a aula ia terminando um aluno gritou: “aqui é vida real”. O que parecia para ele uma ato de rebeldia, não condiz com a realidade, aquilo não é vida real, é ficção, ficção criada pelo governo e endossada por parte considerável da sociedade, nada ali é real, tudo é palmejado para nunca acontecer, para ser sempre o que é: nada, ele não sabe, mas vive como Truman Burbank, no filme o Show de Truman, honestamente espero que um dia todos ali como Truman, ao menos desconfiam que algo está errado em suas vidas e busquem novos horizontes.

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