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Pontes que não levam a lugar algum

Nestes dias tão sem exatas paixões, se é que paixões podem ser exatas, talvez nada seja tão complicado quanto construir pontes. Não nascemos para o autoexílio ou fazer das nossas verdades cárceres de prepotência e ilusão. A vida se completa ou deveria se completar quando atravessamos nossas pontes interiores , chegamos do outro lado e encontramos pessoas que também conseguiram atravessar suas pontes.
Deixar nossos cárceres emocionais requer coragem, porque sair de nós e nos permitirmos em amor por alguém ou uma causa é também saber que a ponte atravessada para isso pode nos levar a uma muralha na qual mais que nossas caras quebraremos nossas esperanças mais sinceras.
Quando nossas pontes nos levam direto para muralhas de desencanto resta-nos saber o quanto nossa fênix interior tem ainda capacidade de reação, se ela vai conseguir se reergue das cinzas e voltar a atravessar pontes ou vai direto fazer ninho em um coração ilha , sem capacidade afetiva de amar e se permitir ser amado novamente sem as aspas do medo da decepção por perto.
Alimente a traição com confiança, o ódio com amor, a tristeza com alegria, frieza com o calor da paixão, promiscuidade com a inocência, seja tolo diante da sabedoria do mal e certamente o desencanto que você encontrou do outro lado da ponte vai se revelar totalmente nu a sua frente, sem puderes vai dizer quem exatamente é na certeza de que você é um João Bobo desses de circo, neste momento abraçar a fênix interior é ter consigo mesmo a beleza de recomeçar longe do mal antes sedutor e aparentemente amigo.
Todos nós temos aqueles dias os quais pensamos: “não nasci para ser feliz”,  sei disso, boa parte dessa impressão errada acontece pela quase irresistível sensação de que outra pessoa é nosso universo, o mundo perfeito de amor revelado só para nós por alguma força misteriosa da natureza, mas dia menos dias descobrimos que aquela pessoa foi tão somente a projeção das nossas carências e desejos e que ela sempre nos disse isso e nunca escutamos.
Não há nada de perfeito do outro lado da ponte, há esperança e expectativa de algo bom, nada que é bom é mistério ou se oculta, o bem não mente, o bem é revelação, do outro lado da ponte não encontraremos nada que não seja humano e ser humano é ser imperfeito o que se revela perfeito tem na sua essência a mentira.
Do outro lado da ponte nossas vidas podem se completar, mas nunca vão se anular, todos nós somos o que somos e não podemos fazer de emoções peças de teatro neste ato único da vida. Ou somos ou mentimos, quem mente acaba só e ridicularizado diante si mesmo, perde a oportunidade de ter consigo mesmo uma relação honesta e abrir as portas do seu coração para alguém que não busca o perfeito de uma vida a dois, busca um coração que somado ou seu possa bater mais forte e jutos construírem a mais perfeita manifestação do amor: o respeito de quem divide a mesma cama, vida, alegria e dissabores.
Não se oculta a verdade por medo de perder quem amamos, quem se sente amado de verdade tem a capacidade de entender e perdoar quando se sente ferido , do outro lado da ponte o outro só será um parceiro bom se tivermos uma relação franca com ele, o outro não é o que desejamos que ele seja, cada um segundo a si mesmo nos completa sendo quem é, eu sou tu és e juntos vivemos o que temos para viver em comum.
Quem ama e cruza a ponte não sente vergonha de quem está ao seu lado, não busca fazer do idealizado o real , quem ama e cruza a ponte é solidário, fraterno, estende a mão, cuida, protege, cruzar a ponte é ter coragem de proteger o outro  encontrado do outro lado quando tempestades desabarem sobre sua cabeça, cruzar a ponte e ser um pouco o outro sem deixar de ser quem somos.
Do outro lado da ponte não há espaço para negociar emoções ou incertezas, ou estamos ou não estamos, ou tu és para mim e eu para ti ou não somos nunca dois. Já quebrei muito a cara, certamente e infelizmente quebrarei muitas outras, mas enquanto viver não desisto de encontrar o que pode me fazer bem do outro lado da minha ponte interior, cada cara quebrada é um motivo a mais para seguir em frente e ser feliz sem culpar pessoa alguma pelos arames farpados que pisei.



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