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Infinita alegria de estarmos vivos

Narcisa, moradora de rua
A mãe envelhece enquanto assiste à novela, meus nervos doem, não quero a mãe velha ao tempo que passa sobre tristes novelas, às vezes a vida parece tomada por verrugas e cacos de sonhos, cacos de sonhos é pior que nunca ter sonhado ou olhado para o céu. Me agonia  esse tempo em que verrugas riem da gente na TV, tudo parece andar lá fora, mas aqui dentro há aquela espera estúpida, esperar o? Vai o barquinho de papel leva a felicidade e eu como um bobo corro atrás, os peixinhos todos rindo de mim, olho para água e sou um palhaço que perdeu a graça.
Fecho os olhos e me imagino a dançar uma valsa no calor quente do bem que só existe quando estou de olhos fechados, algumas almas já nascem solitárias por mais que busquem o par da alegria de conviver: tudo se vai em barquinho de papel.
Fico pensando como terá sido a noite daquela senhora mendiga que dorme ao relento no mercado municipal. Faz muito frio, ela e os outros mendigos devem sofrer muito esses dias, se pudesse traria todos aqui para casa, lhes daria leite quente, biscoitos e roupas limpas. Às vezes penso que nasci para fazer a felicidade coletiva de pessoas que dormem pelas ruas, a felicidade individual nunca me foi amiga por muito tempo.
O nome da senhora mendiga é Narcisa, o seu nome é uma ironia para quem só se espelha no cinza da miséria, meu coração nordestino, nascido nos matos entre os bichos da natureza dói ao se espelhar nos olhos de dor de quem é tão invisível, de quem não sabe o que é compaixão.
Todos se dizem cristãos e tantas outras coisas que se dizem bons e altruístas, mas o mal nestes dias frios é quem aquece o coração de todos.
Narcisa já morreu, mas havia morrido sempre, talvez já tenha nascido morta, Narcisa nunca morreu, ela são tantos outros. Meu pai analfabeto das letras, mas alfabetizado em coração bom, se encantava com Narcisa, e por quê? Porque ela sabia ler, meu pai olhava aquela mulher farrapo, sentada na sujeira, lendo jornais velhos, ela sabia ler, ele não.Para meu pai esse era o mistério: como ela sabe ler e vive nas ruas? Para ele ler era a ponte para um vida, se não feliz, ao menos não sofrida. O sofrimento é tão somente o que é, a síntese de muitas dores, para o sofrer ter leitura( como dizia meu pai) ou não é irrelevante. 
Meu pai bom coração, era triste como eu sou, pena que não ter tido tempo de dizê-lo que saber ler também é uma maneira de ser mais triste, eu leio por debaixo das letras de quem escreve e percebo os sinais se algo de bom ou ruim  pode acontecer, tudo que é amanhã é dito hoje, às vezes até em delicadas frases, eu converso com as letras, têm vozes de cantor italiano do século XI lendo sonetos nunca escritos por mim que consolam minha vida.
Meu pai bom coração era alegre como eu sou, não era de religião, gostava de música: Trio Parada Dura, Paulo Sérgio e Sérgio Reis, o som vai tocando em minha cabeça, canto ao amor que tem coração quente e olhos ciganos, me abraça o frio da tarde, amo intensamente e sofro intensamente quando todo amor cai do terceiro andar e esmaga minhas asas de anjo barroco, contradição: carne e alma, amor e sentimento de perdas.
Mãe seremos felizes, dessas felicidades que nos rimos sem por que, mãe antes do inverno seremos felizes, seremos aquecidos pela infinita alegria de estarmos vivos.
Eu amo sempre 100 %...Não sei viver nada pela metade. Chove hoje no nordeste, eu sinto frio e beijo tua boca que só me aprece quando estou de olhos fechados...Deus salve minha alegria.


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