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Licença Poética

Ediney Santana
A minha licença poética me permitir ser quem eu quiser, mas nunca ficar parecido com quem ou quê mais odeio. Gente presunçosa que ama pela metade e faz pacto com o diabo para ser aceito no castelo de Deus. Desses “inocentes” e defensores profissionais da vida quero distância, são como o diabo que tocou Jó com autorização divina, criminosos do espírito, abutres da carne... Cuidado minha gente, não é só do lado do mal que o diabo tem seus filhos.
Uma canção da Legião Urbana nos diz: “E tudo aquilo contra o que sempre lutam
É exatamente tudo aquilo o que eles são”. E a velha fome de vida me devora, quero ser a utopia possível, mas sem pacto com o mal.
Milton Santos disse parafraseando um velho dito popular: “dize-me onde estás e eu te direi quem és” e finalizou “o lugar onde estou ajudar me definir”. O meu lugar me define, vivo no nordeste, mais que isso, sou do nordeste. Ser nordestino é ser visto e olhado muitas vezes como alguém periférico, alma periférica.
Algumas pessoas nos olham como o mundo branco olha para África, são olhares coisificadores, olhar do estrangeiro sobre um povo que embora seja o mesmo povo é visto quase sempre pelo sul com povo periférico. Estudos indicam que o Jardim do Éden poderia ter existido de fato em algum lugar do continente africano (outros estudos indicam que pode ter ficado onde hoje é o Iraque) e que Adão e Eva eram negros, isso nos diz que de certa maneira somos todo um só povo, e, além disso, o útero primeiro da vida era negro.
Não há povo periférico porque todos nós somos o centro, seja lá qual for sua cor, religião ou lugar de nascimentos somos o centro, no entanto nos dividir tem haver com a ideia de poder e poder é subjugar outros povos e escravizá-los. Racismo ou xenofobia são ações de poder, olhar o outro como inferior, expropriá-lo de valor cultural, social e até econômico, destituí-lo até mesmo da sua condição de humano é tão somente estratégia de manutenção de poder, estratégia das mais pervenças que se têm notícias.
Então apago as luzes e começa a música: Hey, Thats No Way To Say Goobye me invade, as vozes de Judy Collins e Leonard Cohen são mantras e trazem paz aos dias inseguros por onde meu coração navega, o amor, solidão e o teu nome na ponta da minha língua ainda sente o gosto do beijo.
Queria te abraçar agora, há calor aqui, mesmo que tudo esteja frio lá fora, aqui aqueceria tua alegria, que a morte não me leve antes de amar profundamente teu corpo e chegar a tua alma, toca-la ao prazer desse gostar sereno como a voz de Leonard Cohen, eu sou o mundo e não coisifico nada.
Esse é o tempo da não memória, não esquecemos porque não tivemos nada para lembrar, simplesmente mastigamos dores e alegrias na mesma saliva, não engolimos, jogamos tudo no mesmo cesto de lixo da indiferença emocional, esse é o tempo em que nos tocamos, nos deliciamos com os toques, mas não nos sentimos.
No entanto, porém, todavia hoje é quarta-feira, quase ninguém lembra que hoje é quarta-feira, não é um dia famoso, a não ser que seja o dia do nosso aniversário ou o dia em que tudo que amamos atende pelo nome daquela criatura linda que chamamos de Meu Bem, então sorria e viva seu tempo bom com a licença poética possível... Beijinhos.


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