Pular para o conteúdo principal

“Nessun Dorma”

O mistério é estarmos fechados em nós mesmos quando tudo que é revelação ferve na tentativa de nos unir, porque nossos olhos nos espelham para além de toda essa neblina. Meu amor quão doce são essas noites em que não dormimos, colheremos estrelas e oferecemos ao céu, estrelas colhidas no orvalho dos meus olhos prisioneiros dos teus.
Pela praia somos esse horizonte de esperança em que na tua boca meu nome a felicidade vai dizer, quando o amor se faz janela para dentro de nós, quando não há melancolia pela estrada... Eu segurei tuas mãos... Quando o amor vence a maldade da terra sem coração, do coração sem alma, dizer ao amor que o ama... Então canto essas antigas alegrias que te trazem aqui. Amor queima pela noite, mas se fortalece quando ao dia ele sabe que é amado.
Quem guarda de nós o vazio de não mais nos habitarmos? Estou indo para esse lugar que de ti fica a voz insegura do amor, mas se é insegura nada nasce em pedra deserto, sermos dois e sermos nada quando sobra o medo de dizê-lo que sentimos.
O que você leu a cima é um texto da minha autoria  livremente inspirado em um trecho chamado “Nessun Dorma” da ópera Turandot escrita em 1926 por Giacomo Puccini, “ Nassum Dorma” é uma passagem emocionante e dramática que fala sobre a descoberta do amor e da possibilidade de qualquer um ser esse amor revelado ao coração que o busca.
Gosto de escreve e estudar ouvindo música, de preferência música clássica, algumas óperas suaves, mas tem dias que vou de rock mesmo, dias em que estou precisando de adrenalina sonora e a cabeça ferve de tanta inquietação. O amor é inquietude como um rock gutural, selvagem como um javali e terno como um ursinho de pelúcia, bem esse é minha maneira de sentir amor.
“Nessun Dorma” é dramática, na voz de Luciano Pavarotti é para comover até o mais gelado dos corações, ele canta com suavidade e drama, mas lá escondido posso sentir o javali do amor, feroz, rosnando, salivando e ao mesmo tempo dizendo: “ ninguém me quer, ninguém me ama”.
Gregório de Mattos (Salvador, 23 de dezembro de 1636 – Recife, 26 de novembro de 1695) isso que é sucesso, o camarada nascer em 1636 e até hoje se lido, estudado, amado e difamado, pois bem, vai eu com meu javali amor transbordando ursinho de pelúcia e o Gregório joga esse poema na minha cara:
“O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta”

Acabou-se “Nessun Dorma”, mais ou menos, em último caso coloco para tocar Lea, canção de uma banda chamada Toto, é tão suave, nos pega pelas mãos e nos faz dança sozinhos pela casa. Mas o Gregório de Mattos não tá de todo errado, tem la suas mais que sinceras verdades poéticas.

O que é o amor sem um intenso e prazeroso bater de coxas?  Sem o misturar salivas quentes? O que é o amor se não nos perdermos no molhado de um corpo em brasa?  O que é o amor sem nos fazer perder a cabeça e mudar o rumo dos nossos passos programado matematicamente?
Imagino lá em 1960, um Brasil quase todo rural, despudorado, pessoas entrando na floresta para transar, mulheres com aqueles longos vestidos, jogadas na grama, entre arbustos, sem preocupação transavam ali sobre a lua ou sol.
Poucos beijos e muita selvageria no penetrar dos corpos, artérias em descontrole, gemidos espantando passarinhos, a delicadeza do javali sem ursinho de pelúcia, o amor nascia da carne, do fazer gemer, das mãos indelicadas rasgando a pele, do gozo na boca e do beijo devorando a língua.
Entra em um rio, deixar a água lavar os corpos, água doce que faz doce nas bocas que se cruzam, encostar-se a uma pedra bem no meio do rio, se permitir novamente as maravilhas do sexo pelo sexo, do amor que pode nascer do ventre que pega fogo, água passando pelas pernas, levando o suor, os gemidos que não se escuta pelo barulho das águas, o corpo livre, molhado, pingo de água sobre os seios que pedem língua... O Brasil colônia talvez tenha sido mais feliz que este nosso, se não fosse os ferros da escravidão seria a pátria perfeita: sexo, natureza, beleza e amor renascentista.
Hora de voltar aos anos 2013, o amor de hoje é urgente, apaixona-se e desapaixona-se entre um capítulo e outro desse filme sem muita variação que é essa década. O Brasil de hoje é chato: pastores e gays discutindo sobre o óbvio que negam, pts, eleitores cúmplices, dilmas, classe média chorona , literatura masturbação, depressão, violência como esporte e estrela de tv, silêncio, cumplicidade com o tédio. O amor definitivamente está fora de moda, o amor é uma roupa bobo da corte, ficou o bate coxa sem emoção, “Nessun Dorma” é um vinil empoeirado para tolos corações como o meu...O amor ainda me faz sentir frio na espinha.









Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…