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Rabiscos poéticos

Foto: Ediney Santana
Todos os livros que leio, ao fim escrevo um poema. Não é uma resenha em forma de poesia sobre o livro, é só alguns rabiscos poéticos ou anotações do que aconteceu naquele dia. Às vezes quando alguém me pede um livro emprestado fico com vergonha de emprestar, não pelos rabiscos poéticos em si, mas pelo que dizem, às vezes são bobagens, outras confissões íntimas não menos bobas.
Podemos escrever coisas por muitos motivos: para preservar nossa própria memória, para sermos lidos, desabafar no papel a falta de ouvidos que queriam ser par em nossas divagações, para nunca ser lido, escrever no silêncio do quarto o que não temos coragem de falar a pessoa alguma.
Certa vez uma conhecida me disse que eu estava em seu diário, fiz de tudo para ler, mas ela sempre dizia que era íntimo demais. Ficava pensando que íntimo demais era esse se éramos amigos superficiais? Talvez ela tivesse uma relação secreta comigo, algo que só ela e seu diário sabiam, uma relação que entre nós sempre foi quase gélida.
Na era do livro virtual não me animo muito, gosto do cheiro do papel, de dormir com o livro e claro de rabisca-lo, cheira-lo e às vezes ler também ( risos).  Minha filha teve aqui em casa e disse: meu pai que cama é essa? Tão desarrumada e ainda com esse livro e caneta sujando tudo? Na inocência dos seus três anos tentou arrumar a cama, ao menos a caneta e o livro ela guardou em outro lugar.
Esses dias com meu amigo Marcos Paulo no Bistrô do Miúdo bebericando umas cervejas disse para ele que estava encantado com a possibilidade que todos agora tem de preservar a própria memória, essa máquinas digitais, celular que grava vídeos e blogs deu a todos a chance de eternizarem seus vidas, emoções e momentos. Eu sou do tempo que uma simples fotografia era artigo de luxo, não por acaso só tenho uma foto quando criança, tinha seis anos quando Janete Gorda fez aquela foto, uma que tá na contra capa do meu livro de poemas “ Anfetaminas e arco-íris”.
Hoje todos têm direito a memoria, mas eu prefiro além das fotos, rabiscar livros alheios, deixar minhas impressões, creio que entre uma traça e outra alguma coisa há de ficar, mas não penso nisso quando escrevo, apenas escrevo porque gosto, não re-leio nada que escrevo, primeiro porque minhas letras parecem terem sido escrita por um dinossauro de tão feias que são e segundo porque não tenho paciência para me revisitar.
Minha casa é silêncio, às vezes assusta essa ausência de som, passo boa parte do tempo na “biblioteca”, fico olhando esses livros, ah! Se pudessem falar, me convidar para dançar um tango desses bem depravados, se pudessem me abraçar e dizer: te amo, livros que guardam segredo, lidos e amados como dias de chuva e dias de domingo em Santo Amaro da Purificação.



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