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Da solidão necessária

Se não encontramos a felicidade em determinado lugar, em outro certamente vamos encontrá-la, o espaço entre o não lugar da felicidade e o lugar da sua essência chama-se solidão, aproveitar a solidão para refletirmos sobre essa busca por algo não tangível como a felicidade é o melhor a fazer quando o único diálogo possível é entre nós e o nosso eco. Acredito assim que a solidão pode ser um estado bom, se for o momento para reflexão, eu estando comigo faço ponte para o que desejo, para aquele outro lugar em que ser feliz é possível.
Nietzsche em Ecc Homo escreveu: “Onde buscar seu criador aquela nova manhã? Aquele delicado e até aqui desconhecido rubor com que, um novo dia, a toda uma sucessão, todo um mundo, novos dias romperá”. Onde buscar essa nova manhã? Qual caminho nos levará a esse encontro possível entre nosso espírito e a paz i interior?
Suicidas buscam encontrar a paz na morte, religiosos na religião, materialistas acreditam na matéria como porto seguro, artistas acreditam na arte, escritores nas palavras e pessoas comuns acreditam apenas na vida e é o viver que as fortalece, penso que são essas pessoas “ comuns” que salvam a vida das suas tragédias.
O amor só é amor se aceito como é,  se o amor deixar incertezas ou medos, pode ser qualquer coisa, tesão, curiosidade ou até mesmo exotismo, mas amor não é, acontece isso como a vida, estarmos vivos não é  só respirarmos, andarmos, treparmos, sermos aprovados em um concurso, estarmos vivos é as relações profundas que fazemos com tudo que somos, como o próprio Nietzsche escreveu, a  gota de sague colocada em cada ação nossa, não existe ser pela metade, ou somos ou nos negamos.
Querer tempo bom para nossas emoções, esse caminhar suave pelo deserto que pode florir na primavera é tempo sempre bom de sentir aquele cheiro de perfume no ar, eu sinto isso toda vez que escuto a canção “There's No More Corn On The Brasos” da banda holandesa,  The Walkers , a letra não diz nada ou quase nada do sentimentos que escrevo aqui, mas a voz do cantor lamentosa, com aquele arranjo de música andina me conforta, sinto-me abraçado e sinto que o amor é uma possibilidade concreta.
Nem ouro ou prata, nem um milhão de amigos, nem estrelas terrenas, nem o paraíso das financiáveis alegrias, nem o amor de verão, nem a paixão de começo de ano, nem as coisas que alimentam os olhos, nem a mão que quase deus determina quem somos... Apenas a felicidade de ter neste pequeno planeta dias de paz e profundo amor.
Para viver esse profundo amor é preciso saber da solidão necessária, algumas pessoas enlouquecem quando se sentem só, tantas outras simplesmente desistem de si mesmas, mas a solidão é uma boa conselheira, deixar celular desligado, mergulhar na calma do próprio coração, entender os sinais quando não  se é bem vindo em determinado lugares e caminhar para perto mais de si, chegando perto do que realmente somos certamente encontraremos também quem realmente queremos.




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