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“La vem seu Juca”

Renata Maria:  Foto: Ediney Santana
Quando eu era criança minha mãe sempre cantava uma canção de ninar que tinha esses singelos versos: “Lá vem seu Juca/ da perna torta/ dançando a valsa com a Maricota/ Eu bem sabia que seu Juca/ da perna torta/ só queria dançar a valsa/ com a Maricota”. Seu Juca com sua perninha torta só queria da vida dançar uma valsa com a Maricota, para simples versos profunda razões, porque se pensar bem durante anos e em vários momentos se é seu Juca com a perna torta só querendo coisas tão simples quanto dançar uma valsa, coisas simples não são fáceis de conseguir, e as circunstâncias por vezes sempre nos impõe uma perna torta, ou seja, barreiras.
Meu pai adorava a canção “Casinha Branca” do Gilson, aquela que diz: “Tenho andado tão sozinho ultimamente/ que nem vejo a minha frente nada que me dê prazer/ sinto cada vez mais longe a felicidade/ vendo em minha mocidade tanto sonhos perecer/ Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher/ ter uma casinha de varanda / um quintal e uma janela para ver o sol nascer/ Às vezes saio a caminhar pela cidade/à procura de amizade/ vou seguindo a multidão/ mas eu me retraio em cada rosto/ cada um tem seu mistério/ seu sofrer sua ilusão”.
O eu lírico de “Casinha Branca” vivi atormentado na cidade por isso busca a fuga para o campo e lá espera terminar seus dias olhando o sol nascer da sua janela, busca então esse eu lírico algo bem simples e singelo, viver com e para natureza, deixar para trás a tristeza da cidade grande e a sensação de vazio que o persegue, mesmo que esteja em meio à multidão.
Em “Tarde Vazia” do Ira!! Ouvimos versos como: “Pela janela/ vejo fumaça/ vejo pessoas/ na rua os carros, no céu o sol e a chuva/ o telefone tocou/ na mente fantasia/ Você me ligou/ naquela tarde vazia e me valeu dia”. Aqui o personagem preso no tédio da sua própria casa tem seu estado de espírito transformado por um telefonema, um simples “Alô” faz o mundo fica melhor, fica melhor porque tira da rotina, estende a mão, diz estou aqui.
Gosto da ideia de que algo simples pode fazer grandes coisas, mudar nosso estado de espírito, fortalecer nossas energias e nos projetar para o futuro com menos insegurança. Receber um telefonema e o dia se abri em cores, conseguir dançar a valsa com a Maricota, construir uma casinha em um lugar de mato verde e envelhecer tranquilo, saber-se que foi bom para si mesmo e para os que encontrou pelo caminho.
Ouvir Neil Diamond logo pela manhã e sair leve para rua, abraçar a si mesmo e ser amigo das próprias razões, não se sentir excluído e saber que ser feliz com outras pessoas é o melhor da vida, mas se isso não for possível, há na natureza tantas belezas para nos fazer sentir bem, mas desistir nunca, deixar passar o que não tem importância e cultiva o que de melhor encontramos ou somos.
A solidão pode nos ajudar a nos entendermos melhor, mas se não aprendermos a lidar com ela, pode também nos tornar estúpidos e nos levar para bater a cara no muro, sempre e sempre! Cada dia é sempre novo recomeço, pouco importa glórias passadas, vitórias de ontem porque todos os dias novos desafios nos pedem ação, não reação, mas ação, entrar na cova dos leões e como Daniel  vencê-los.
O lugar mais sagrado do mundo é nossa casa, nossa casa é o nosso corpo, porque é tão somente ele que nos mantém vivos, então moramos em um lugar sagrado, algo nos dado por algum mistério que não temos condições de decifrar e pensando bem para que decifrar algo que é nosso bem?
Hoje quero dançar a valsa com a Maricota, construir minha casinha no campo, recebe um telefonema e ser feliz na medida da simplicidade escolhida por mim, dentro dessa simplicidade há toda alegria sangrada desse meu corpo lindo, porque sou parte da natureza e tudo que é da natureza é lindo, quem pensa o contrário é porque não entendeu o quanto somos parte da natureza como águas em um riacho, chuva sobre flores, estrelas cadentes, os animais na selva, a graminha no jardim...

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