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“Mudam-se os caranguejos, mas a lama é a mesma”

Cazuza, em “O Tempo não para”, cantou: “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades” ou ainda Caetano Veloso em  “ Fora da Ordem” canta: “ aqui tudo parece que era construção e já é ruína” . Certa vez disse ao amigo Dinho Fagundes que pouco importava para nós quem seja eleito prefeito, governador ou presidente, pouco nossas vidas podem mudar tendo como agentes os mórbidos corações que vão ocupar esses cargos no futuro, por isso prefiro também a frase do Geraldo Vandré: “quem sabe faz a hora não espera acontecer”.
Espera por outra pessoa quem não tem certeza de si, terceirizar seus sonhos na sombra da vitória de algum é estupidez; prefiro acreditar em Marx que escreveu: “Cada um segundo sua capacidade e sua necessidade”. Neste museu de velhas novidades que é o Brasil ter consigo mesmo um caso de confiança é necessário para quem não deseja morrer de esperança, enforcado nos próprios sonhos, porque desta construção verde amarela as ruínas sempre desabam na cabeça mais desamparadas.
Tenebroso é o sabor da vida de quem espera no coração do outro ser reconhecido, acredito, contudo, como escreveu John Donne, que pessoa alguma é uma ilha. Mas o pavor da solidão pode ser um inimigo devastador, pode nos fazer ir para cama com urtigas, saborear veneno de cobra coral e ainda rezarmos pedindo proteção para quem nos mata.
Não ser ilha, mas também não matar em nós completamente o egoísmo, que na dose certa pode salvar nossas vidas: não se divide o que não se tem, não se promete o que não se pode cumprir, não se ama o que tem por base o mal.
Não ser pessoa tapa buraco é um bom começo para esse encontro feliz com o que desejamos fazer de nós. O que é uma pessoa tapa buraco? Quando você só é convidado para um evento só porque alguém faltou e é preciso que aquele espaço seja ocupado, mesmo que seja por você para quem a festa não previa  presença  , quando só lembram de  convidá-lo  para aniversários quando o encontram na rua, quando só  apertam sua mão em tempo de eleição, quando querem seu sexo para conseguir algo além e muito além de um gozo, enfim quando você só é lembrado por necessidade ou por acaso e nunca por consideração ou respeito, tão pouco por afeição ou amor.
Conviver com a solidão não é o fim do mundo e tenha certeza: é melhor ficar só do que cercado de sugadores de energia que os olhares são puro veneno. Solidão não é o mesmo que isolamento, solidão é o prazer de gozar da nossa própria companhia, colocar um bom disco na vitrola e nos permitir contemplar nosso mundo, solidão não é carência, isolamento sim é carência, mas coração pode coração e se encontramos quem esperávamos tanto sem saber quem era esse alguém e seu coração faz par com o nosso, então é festa!!!!
Passo boa parte da minha vida sozinho, quando quero ir além de mim, sei quem são meus amigos e amigas e onde encontrá-los. A fuleiragem do mundo não me faz falta, sou mais cristão que muitos religiosos por aí. Claro que como disse, coração pede coração, e todos desejam esse encontro (de dois corações) que seja certeza e não dúvidas, certeza tanto quanto o sol vai nos acordar pela manhã.
É melhor seguir os exemplos o da cigarra e da formiga, se divertir e curtir os prazeres da vida como a cigarra, mas não esquecer de nos preparar para o inverno que todos nós vamos passar nesta vida , dia menos dia esse inverno chega e para muitas pessoas que só foram cigarras e viviam cercadas de outras cigarras pode ser um grande desapontamento quando notarem que foram isolados no limbo da indiferença.
Não se lamente, apague do celular números que não te dizem mais nada, se apegar a gente que não presta é o mesmo que cometer lentamente suicido. Só idiotas acreditam que sua felicidade está nas mãos de outras pessoas, é bom amor coletivo, mas esquecer do amor próprio traz toxinas para a alma. É bom ter alguém do lado, se termos certeza que podemos fazer bem a essa pessoa e ela a nós, caso contrário: meia volta, volver!
Os amigos de nossos amigos não são necessariamente nossos amigos, sorrisos nem sempre significam um convite a entra em uma casa, sentar junto no bar para bebericar umas cervejas, fico com uma frase de Renato Russo: “Não escolhemos nosso amigos, nossos amigos é quem escolhem a gente”, no trabalho, na política partidária e até na nossa família é assim, muitas vezes somos escolhidos, saber disse nos alerta para não arrombarmos a porta e forçar nossa presença.
Não sinto falta do passado e nem das pessoas que la estão, se errei ou se acertei pouco para mim interessa, sou o sentir desse agora, o que vale é não fazer do meu coração porta rancores e base de lançamento par ao ódio. Se tudo já são ruínas, para mim o que mais importa é ter consciência que aqui dentro não sou ruína e não fiz da vida de pessoa alguma escombros... Vamos ao chope, que hoje é sexta feira e sou baiano como os bagres do rio Subaé que mesmo nadando em águas tristes não desistem nunca.
Às vezes podemos ter a impressão de que usar o mal para fazer o bem vai nos levar para algum lugar, pode até nos levar, para um lugar pior do que estamos agora, o bem é lento, vem ao pouco, mas um dia vem...Então não é só trocando os caranguejos que as coisas vão melhorar.


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