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O Piauí não é aqui, infelizmente!

Um dia em um evento no começo do primeiro governo Wagner, o governador disse que muitas pessoas queixavam-se que ele não fazia muitas obras, ao que ele sempre respondia que a missão maior dele era ajudar na construção da cidadania das pessoas, ou seja, seu governo investiria em coisas que nem sempre são contempladas com os olhos.
Só sabe-se cidadão ou cidadã quem tem consciência de si e do seu papel na sua própria história e na história da sociedade, mas o governador esqueceu-se disso, hoje não passa de um construtor de pontes que ligam o absurdo ao constrangimento de um estado que se dissolve a sua frente. No entanto, acredito que a prova inconteste da loucura é quando alguém acredita-se importante na transformação de algo para melhor quando esse algo é um cadáver apodrecido em suas mãos, o governo da Bahia, por esse prisma é demente e como tem o poder , é também extremamente é perigoso.
O grande é talvez único problema no Brasil é o desmonte intelectual de parte da população, essa população não “sujeito” de suas próprias emoções tem condições precárias de analisar a própria sociedade em que vive, passa então a viver sobre o signo do imediatismo, tudo que é bom tem que ser agora, a vida não é planejada a longo prazo. O governo, maior incentivador desse desmonte intelectual, sabe beneficiar-se disso, assim investir em educação é tão somente pintar ou azulejar uma escola, isso traz o encantamento do luxo,  beleza, a sensação de um governo que se preocupa com seu povo, mas em verdade escolas bem pintadas na Bahia não passam de sepulturas intelectuais de luxo para nossos estudantes, a Bahia é o segundo pior estado em índices educacionais do país.
Na Bahia a educação deixou de ser a base para formação intelectual para ser o que os olhos enxergam e conseguem entender, adestra-se pelos olhos os novos escravos, a Bahia é uma enorme senzala ao ar livre em que a felicidade não passa de um riso triste de quem ri sem saber o motivo do riso, como alguém que ler e não entende o que leu.
A educação deve ser uma questão prioritária da política, com uma formação solida podemos interferir positivamente em toda sociedade. Um povo bem educado é um povo menos doente, um povo bem educado é um povo menos violento, um povo bem educado é um povo menos desempregado, um bom bem educado não sustenta parasita políticos e nem se encanta com o que é feito apenas para agradar os olhos, mas que por fim representa a morte lenta e dolorida de todos. Então a educação pública é artificialmente destruída, pouco se investe em valorização e formação de professores, partidariza-se a escola, escolas são dividas em feudos eleitorais e tudo que se ensina nestas escolas é a não cidadania, gambiaras pedagógicas, o atraso é apresentado como grande novidade.
Cocal dos Alves é uma pequenina cidade, pobre, sertaneja, lá não nasceram barões ou artistas famosos, nunca havia aparecido nada sobre ela na tv, parte da sua população trabalha na roça e tem pouco estudo, hospitaleira abraça os visitantes com gentileza, a sorte de Cocal dos Alves é que não é uma cidade da Bahia, fica no estado mais pobre e sem perspectiva do país: Piauí.
Cocal dos Alves chamou atenção do país não por crimes de corrupção, não pela seca terrível que castiga a cidade, não por ser terra de artistas famosos, nada disso, chamou atenção do país por causa de uma escola: Escola Augustinho Brandão. O que tem nesta escola? Ela é a melhor escola de ensino médio do Brasil. No meio da caatinga, em um lugar distante, com poucos recursos essa escola nos deu um exemplo concreto de que quando um povo é agente em sua própria história, quando professores fazem um pacto pela excelência pode-se sim ter resultados surpreendentes.
A Escola Augustinho Brandão no ENEM de 2012 foi a intuição pública de ensino que tirou a maior nota e não só isso, entre todas escolas de ensino médio foi a melhor colocada, deixou para trás as escolas mais ricas e com alunos mais ricos do país. Uma escola cravada no meio do alto sertão, sertão que para a maioria dos nordestinos do litoral é o mesmo que ignorância e atraso.
A Escola Augustinho Brandão disse para todo o restante do nordeste: nós conseguimos. Escola é lugar plural e não de personalização de pessoas, a cidade se orgulha da escola e não somente de um nome ou alguém que la tenha nascido, essa forma de pensar a sociedade faz daquela cidade, com todas dificuldades que  tem,  um lugar diferente,  lugar que nossas modestas utopias estão longe de alcançar.
O Piauí não é aqui, infelizmente! O Piauí ergue-se com uma fórmula simples: a felicidade não é apenas o que podemos tocar, há algo espiritual, intelectual que as pessoas não podem ver, nem aplaudir, algo que não se pode colocar uma placa de inauguração, esse algo é educação. Educar o povo para que ele cultue não personalidades, mas sejam eles próprios agentes de suas vidas, para que vençam a pobreza e a miséria com sua própria capacidade intelectual. Tão diferente da Bahia, lugar que no passado distante era assim e que hoje não forma disforma, não acolhe, expulsa, não respeita, difama, não incentiva, deprime, não respeita o diverso, aposta no totalitarismo, a Bahia de hoje é a soma do que vemos nos jornais todos os dias: miséria, crime, fome, desespero e um povo que incapacitado para refletir sobre a sociedade aplaude de pé seus mais perigosos assassinos.








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