" Coisas do coração"

Em uma canção cantada por Leandro e Leonardo ouvimos o lamento: “não aprendi dizer adeus”. A canção fala de um amor que se vai e a tristeza de quem não saber se despedir de quem em verdade há muito se foi, mas não saber dizer adeus vai além das agulhas românticas do coração. Prestes a deixar a empresa na qual trabalho um amigo me disse: “é difícil dizer adeus? Respondi que depende, trabalho é coisa e não pessoa, não tenho e nunca tive afetividade por trabalho algum, tenho afetividade pelo bem que posso fazer quando estou em um trabalho, trabalho é ponte, meio e não um fim em si mesmo, como ponte é também algo que passamos e não devemos nos apegar como se aquilo fosse nossa máxima realização pessoal.
Na coisa chamada “trabalho” encontramos pessoas, algumas são difíceis dizer adeus porque são almas maravilhosas, mas outras não contribuem em nada em nossas vidas, são como escreveu Cazuza: “vento que passa”. Fato é que saber partir é não agravar as amarguras que promovem essa partida, é ouvir e não escutar, falar e não dizer, ser também um pouco como vento que passa, é preciso ter animo para sempre começar do zero e não esperar das coisas afeição além das expectativas que criamos por elas, mas nunca ser ou se fazer violento ao cortar o cordão que nos prendem a elas, porque até as coisas merecem respeito, elas nos ensinam principalmente como é bom não sermos coisas, mas gente.
Uma antiga canção da minha infância dizia: “Seu moço/ não tenho medo de partir/mas tenho medo de voltar”. Por que teríamos medo de voltar? Porque isso pode nos coloca cara cara com os nossos fantasmas,  pelo medo de estarmos piores do que quando partimos, porque voltar  é ser a zombaria da semana, porque no mundo sabemos o quanto a torcida dos filhos da puta que querem a todo custo aplaudir de pé nossa queda é sempre maior que a torcida do bem, às vezes tímida, prefere torcer em silêncio, ao contrário do bem, o mal é estrela, astro e adora grandes plateias.
Não ter medo de voltar é saber o quanto pouco importa nosso estado, ao voltarmos não somos os mesmos, grandes mudanças nascem dentro da gente, podemos ser fodidos economicamente, desprezados pela sociedade, podem, como escreveu Fernando Pessoa, as mulheres não nos amarem, mas o que importa é que nem na ida e nem na volta tenhamos nos transformados em coisas, ser gente, ter em si todas boas emoções do mundo e que se aparentemente fomos derrotados, saber bem dentro dos nossos corações que ninguém é derrotado de verdade se esteve sempre do lado do bem.
Claro, não acredito em merecimento espiritual, achar que tão somente por sermos do bem que todas portas e sorrisos se abrem, que vamos vencer tão somente por ter pelo próximo compaixão, nada disso, ser do bem é uma alegria interior que pode potencializar nosso animo e criatividade, batalhar, trabalhar, aproveitar o capital humanos que somos investir em nós para conquistar o mundo que desejamos, porque os canalhas que andam na sombra do mal são criativos também e hábeis construtores de guilhotina.
Limpar a poeira que se acumulou entre nós e o amor do outro lado da rua, linda ela nos espera na alegria de quem quer compartilhar, palavra sagrada: “c.o.m.p.a.r.t.i.l.h.a.r”...Então é isso, dizer a deus ao que ou  para quem devemos dizer. Dizer: seja bem vindo ao que nos abre os braços ou sem dizer uma só palavra nos comove a vida.



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