Pular para o conteúdo principal

Encanto desencanto = canto

Foto: Ediney Santana
Encantar-se e desencantar-se parece que ultimamente tem sido coisas simples. Filósofos dizem que devemos manter o permanente encanto pelo mundo e pelas coisas, se encantados com tudo que nos cerca nada será ou é o suficientemente velho para nos entediar. Mas ultimamente por que tudo parece velho e datado? Por que algo super discutido por milhares de pessoas amanhã bem cedo ninguém liga mais? Uma possível resposta para isso é que perdemos o interesse pelo entendimento do que sentimos, olhamos e convivemos, tudo se tornou um lago raso sem maiores emoções, enfim parece que a memória é ameaçada pela urgência imposta pela busca da sempre novidade.
Sentir bem ultimamente é não envelhecer com o sentimento, não deixa-lo se revelar profundamente, "ficamos" e não nos apaixonamos  pelos  nossos sentimentos e é um absurdo namorarmos e projetarmos neles uma história que dure mais que intermináveis 24h. É essa a receita do ter sem se envolver, fica fácil entender porque em um dia milhares de pessoas vão a rua protestar contra tudo e no outro a presidente, alvo de muitos protestos, sobe nas pesquisas. Nossas causas têm sido causas de curta memória e afetividade, perdemos a capacidade de dialogar com o que sentimos, digerimos tudo no Fast food avestruz que se tonaram nossas relações com a história.
Não importa as razões, entrelinhas, tudo deve ser aceito como é, assinar um contrato com linhas bem pequenas ,quem nos oferta diz ser a melhor coisa que já fizemos e se tudo sair errado, assinar outro que conserte o erro, assim pensar não é mais tão importante, pensar cansa, sugere intimidade e intimidade boa é sempre o dia seguinte da última brevíssima paixão.
Não se desespere, se você se incomodou com tudo que escrevi, bom sinal. Nem todos nós estamos a achar o futuro, que bem não chegou, já velho, se nos incomodamos com a ideia da eterna moda, se a Montanha Mágica de Thomas Mann não assusta pela suas mais de 800 páginas então bem vindo, vamos de mãos  dadas subir essa montanha, vamos aproveitar pacientemente o caminho, olhar a paisagem, nos enamorar com tudo que encontrarmos.
Imagine-se deitado ao lado de uma pessoa que ama, olhe bem de perto, preste atenção nos traços do rosto, na delicadeza dos olhos, das unhas, na maneira que ela respira. Permita-se ao encanto permanente e não a moda permanente.
Matar a memória é transformar todos nós em glutões desse sistema que tudo vende, tudo devora e nada saboreia, é beijar e não sentir o prazer do beijo, ler e não ir além do gesto mecânico de folhear página, ser traça das nossas próprias vivências e certezas anêmicas. Quem ganha com isso? Muita gente, empresas, políticos, sádicos do capital, mas quem perde mesmo somos nós, porque mergulhamos no caos de viver e não sentir, gozamos a seco sobre a pele fria que nos transformamos.
Se soubermos o que incomoda, temos também possibilidades de resolver e nos livrar desse incomodo. Tempo bom é o tempo que nos faz felizes, tempo de encontros que são prazerosos por nos trazer leituras diversas sobre nós mesmo e sobre quem ou que nos envolvemos, nada de engolir tudo a ferro e fogo, cativar-se e cativar requer olhar calmo, manter o encanto premente e curioso de uma criança... Então boa noite e ótimos sonhos.






Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…