"Silva"

Hoje li no face book: “ merda de nordestinos, Dilma ta na frente nas pesquisas.” Frase dita por uma mulher fisicamente muito linda, sorria na foto, devia ter uns 19 anos, não senti ódio, não senti nada na hora, apenas quis escrever, apenas quis mergulhar mais ainda no nordeste, respirar o ar quente daqui, amar o possível de ser amado aqui, madrugar nas alegrias reencarnáveis daqui. O nordeste é a África da América, todo nordestino é meio africano e meio judeu, pelo mundo sempre teve mais ódio que amor para colher, mas não quero sentir ódio, estou cansado para o ódio e não quero me cansar para o amor.
Não cansar do amor, não deixar emoções desenfreadas nos igualar ao ódio sem sentido de quem deseja negar no outro aquilo que reprime em si. Somos a experiência da natureza, é tolo acreditar que temos o controle total das nossas emoções e que estamos por cima ou por baixo da estrutura natural que nos faz gente, biologicamente gente, fomos feitos para morrer, tudo que somos é temporário, nossa presunção nada mais é a ilusão de que um mendigo sentado na porta de uma igreja é realmente menor do que somos, em termos de vida e natureza somos iguaizinhos.
O que separa você e eu do mendigo na porta da igreja foi e é o acaso, não há prova alguma que nos assegure que ele está ali por algum carma ou castigo divino, no máximo ele é mendigo e você e eu somos o que somos por uma questão social, política, nada impede de doamos nosso sangue para ele o dele para nós.
A atriz Letícia Sabatella disse em uma entrevista que ela assume a tristeza sem remédios ou paliativos e que não se desespera com a tristeza e isso é digna de uma construção a uma obra de arte, o ônus da sensibilidade, e que não passa anestesiada por pessoas que estão ali deitadas no chão.
Quando mais insensíveis nos tornamos, mais rasas se tornam nossas vidas, penso que quem tem consigo uma relação  narcisista vai sofre com o passar dos anos, aquela mulher de 19 anos que acha que nós nordestinos somos sub-raças terá como castigo não a cadeia, mas o passar dos anos, o embotar da beleza, a velhice dos seus olhos verdes e o estrangular da sua arrogância social.
O único medo que tenho é de deixar de sentir, perder a capacidade de me emocionar, me acostumar com as misérias e fazer do meu suposto mundo feliz última trincheira de felicidade, não nascemos para viver em casamatas. Não há felicidade solitária, o bem deve ser compartilhado.
Recebi um e-mail lindo de uma pessoa que leu algo aqui no blog, me disse que naquela noite se sentia profundamente sozinha, mas de alguma maneira, um texto que leu meu a fez levantar e fazer o que deveria ser feito. Isso é compartilhar o bem, não sou escritor de autoajuda, apenas escrevo minha experiência de que como aprendi a não jogar pedra na cruz e excomungar Cristo pelas cruzes que carrego, lamber as próprias feridas cria anticorpos para não nos contaminarmos com a saliva do ódio que toca a orquestra dos desencontros no mundo.
O Brasil é o que é porque é um país que vive sobre uma esquizofrenia coletiva da supervalorização individual. Incrível como basta ter um nome estrangeiro para portas se abrirem e como basta ter um “silva” no nome para tantas outras se fecharem e se esse “ silva”, for como o meu, nordestino, aí nem amar em paz se consegue.
Hoje li no Face Book uma coisa linda, era um tirinha do Charles Schulz ,trazia um garotinho falando para seu cachorro, a tirinha dizia assim:
“Adeus velho amigo, vou sentir saudades, mas não fica triste não, levanta a cabeça. Não vai ser por muito tempo, na verdade é só até de manhã”. Neste momento o garotinho deita na cama para dormir e o cachorro fica ao lado da cama, então hoje eu sou o cachorro na espera que a promessa se cumpra e sejamos todos felizes.




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