Das virtudes



Quando era criança morei perto de uns garotos que se comparados ao que eu e minha família representávamos, eles eram ricos e nós pobres, mesmo assim, criados ali na mesma rua e na inocência da infância na década de 1980, ficamos amigos. Minha mãe não gostava muito da ideia de que frequentasse a casa de pessoas como aqueles garotos, ela dizia que a corda sempre quebrava do lado mais fraco, se algo de ruim acontecesse logo eu seria apontado como suspeito, mesmo sendo inocente ou começasse a me sentir frustrado ao perceber o abismo entre a realidade deles e a minha.
Naquele tempo diferenças sociais eram mais acentuadas, às vezes acentuadas até de maneira jocosa. Para ser considerado “rico” bastava ter um telefone em casa, “pobre” usava o telefone da Telebahia, para ser “rico” bastava ter um carro, “pobre” era ter uma Monark com único meio de locomoção, “rico” tinha cadeira cativa em frente ao altar da Purificação, “pobre” sentava nas últimas cadeiras, “rico” era “gente da sociedade”, “pobre” servia a sociedade... Hoje essas coisas causam até risos, mas naquele 1983 era assim, talvez minha mãe enxergasse naquelas amizades minhas o mesmo que Machado de Assis narrou em Memorias Póstumas de Brás Cubas : menino rico que monta no escravo e o fazia de cavalinho.
Os colegas de rua ou amigos, vai saber, nunca demostram preconceito comigo, ou talvez nem eu e nem eles soubéssemos o que era preconceito, eu não imaginava mesmo, era que minha mãe sabia como as deles pensavam. Um dia desapareceu da casa do Ruã um carrinho bate e volta dos bombeiros, o carrinho estava quebrado, o dono não ligou, mas sua mãe foi taxativa: “quem roubou foi aquele menino do prédio!”. Falou isso apontando para mim, fiz o que toda criança faria, corri para casa, na visão dela, um pequeno ladrão fugindo ao ser desmascarado.
No outro dia acordei febril, vesti a farda da escola, mas não passei da Praça do Rosário, fiquei lá até chegar a hora de voltar para casa, minha mãe notou a tristeza, mas engoli a seco e não disse nada sobre o acontecido.
Uma semana depois sentado na porta de casa, o dono do carrinho desparecido sentou ao meu lado e disse: “você já pode voltar a brincar com a gente, foi meu irmão mais velho que pegou o carrinho e mandou para consertar, não me disse nada porque queria fazer uma surpresa”.
Ainda voltei lá uns dias, mas não entrei mais na casa deles, aliás, até hoje não gosto de entrar em casas alheias, sei lá, pode ter um carrinho sumido. Os anos passaram, claro há diferenças de classes que se impõe ao que somos, mas muitas vezes o que somos não vai ser vencido por diferença alguma, creio se acreditarmos e os laços forem sinceros, o mundo seja qual for ele torna-se muito mais leve de viver e compartilhar.
Ps: Ainda não desistir de comprar um carrinho bate e volta da Estrela.
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