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Dissonâncias

Às vezes penso que a felicidade é um barquinho de papel lançado ao acaso das correntezas. Alguns ilhados na aparente segurança de uma vida sem variações nunca vão alcançá-lo, outros tantos desistem na primeira tentativa, outros morrem afogados quando estão bem pertinho de alcançá-lo, outros passam a vida correndo atrás e mesmo sem alcançá-lo nunca desistem, mas há aqueles que parecem que nasceram dentro do barquinho. Seja como for, é lugar comum achar que se é infeliz porque se quer e que para ser feliz basta que sejamos de uma religião ou ler um livro qualquer que automaticamente tudo fica azul.
Não há receitas para questões emocionais, cada pessoa é seu templo e de certa forma seu deus, cada um tem sua maneira de sentir e viver suas emoções, buscar em manuais a receita certa para construir caminhos menos ásperos pode simplesmente não levar a lugar algum. Claro tudo que for positivo e nos servi como bússola é sempre bem vindo, mas o caminho nós o fazemos com nossas experiências, anseios e buscas. A bússola diz o caminho, mas não nos diz como caminhar, achar o ritmo os passos é uma questão individual.
Sempre acreditei e acredito que a felicidade não repousa em nada material, mas as coisas concretas pode nos trazer segurança para vivermos intensamente tudo que desejamos, sempre desejei coisas que não se pode pegar: amor, paz, alegria, felicidade e tudo que completa essas coisas, o tempo passa e os desejos meus de infância continuam aqui, continuo correndo atrás do meu barquinho pessoal.
Não perder aquele encanto pessoal que fala os filósofos me parece ser o mais difícil, o encanto pessoal sem ser egoísta nos projeta para além de nós, abre as portas para o sempre renascer sobre nossos próprios escombros.
Hoje na porta da prefeitura encontrei meu compadre Jorge Boris, estava com seu filho e meu afilhado Felipe, havia muitas outras crianças com seus pais e professoras, o motivo de estarem ali era um esgoto jorrando na porta da escola em que estudam. Um vereador estava sentado de costas na janela da prefeitura, outro se escondeu e um terceiro mandou que as crianças fizessem uma comissão, isso mesmo, uma comissão de crianças para “agendar uma reunião e deliberar sobre a pauta”.
Fiquei pensando sobre o barquinho da felicidade, a felicidade para aqueles pais e professoras é que seus alunos e filhos estudem com dignidade, foi um momento de tristeza para mim, olhar aquelas crianças que deveriam naquele exato momento ter com a escolinha na qual estudam momentos lúdicos de aprendizagem. No entanto foi com esperança que vi aquelas professoras ali hoje, coisa rara, em cidades como a que vivo, professores e professoras demostrarem coragem para o exercício da cidadania.
“Navegar é preciso, viver não é preciso”, diziam, os antigos marinheiros portugueses, Fernando Pessoa recriou isso e nos disse: “ Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. Fernando Pessoa quis  nos dizer que viver por viver não faz sentindo algum, fazer da vida algo que seja útil, criar e recriá-la  a cada instante.
Em uma tirinha de Charlie Brown ele diz: “ Acho que tenho medo de ser feliz, porque toda vez que consigo ficar feliz, algo de ruim acontece”, essa ideia é assustadora, a felicidade como preceptora de algo ruim é de nos fazer tremer o espirito, o que acontece é associação de coisas ruim a felicidade, coisas ruim e boas acontecem o tempo todo, viver é saber-se para dor e alegria, viver  é identificar em meio aos milhares de barquinhos qual será o da sua felicidade pessoal, entrar nele e aproveitar a viagem e enfrentar os furações.



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