“Minha neguinha vou cantar para você”*

Altar de  Santa Bakhita
Desde ontem, quando assisti ao filme sobre a vida de Josefina Bakhita, escrava negra capturada no Sudão, vendida para mercadores de escravos italianos e posteriormente canonizada pelo Papa João Paulo II , revisto algumas passagens da minha vida, longe de ser como Bakhita, sou pecador de todas às horas, mas pecadores também tem coração, me comoveu a santidade sincera e inconsciente de Bakhita, não é fácil para um pecador como eu viver cercado de falsos santos e santas, talvez por isso ao ver o filme tenha sido tomado por uma espécie de carinho vindo de alguém que até ontem nem sabia da existência.
Duas cenas do filme, entre tantas, me deixarem triste porque refletiram um estado de espírito que por vezes sou tocado, em uma das cenas Bakhita é apedrejada pela população, salva pelo padre, começa assim sua vida religiosa, mas é o momento do apedrejamento que me toca, toda encolhidinha, sem ninguém por ela, aquela cena refletiu a solidão de uma maneira mais que dolorosa, mais dolorosa que as pedras que jogavam sobre ela , solidão profunda, não há fuga, se vive ilhado em si mesmo sem eira nem beira.
A outra cena é parecida, depois de ser açoitada pelo seu “dono”, novamente se encolhe. Ao pensar e escrever sobre aquelas  cenas, confesso que meus olhos se enchem de lágrimas, fiquei pensando como aquela mulher extremamente só, fragilizada, sem ninguém por ela resistiu a tanta tristeza sem deixa pessoa alguma triste, aguentou tanto sofrimento sem fazer pessoa alguma sofrer . Doeu em mim sua solidão. Quando foi salva pelo padre e entrou na igreja pela primeira vez sua fé aflorou, Bakhita, nunca havia tido contato com o Deus cristão branco e nem qualquer outro tipo de crença, foi naquela igrejinha perdida nos confins da Itália que Bakhita encontrou paz e conforto, a fé ajudou aquele frágil criatura a tornar sua vida menos solitária e amargar.
As cenas dela encolhidinha não me saem da cabeça, porque já estive assim várias vezes, não me incomodo em dizer isso, não sinto vergonha dos meus momentos de derrota, como também não gosto de gritar ao mundo os de vitória, já sentir cair sobre mim pedras invisíveis da maldade e abandono, da tristeza e ódio, já sentir o peso dos chicotes invisíveis da arrogância e prepotência, me vi ali naquele corpo pequenino, negro, frágil e sozinho, sem ninguém para pedir ajuda ,esperança ou perdão, sem como compartilhar o  amor sentimento base dos meus dias.
No momento que se discute sobre biografias no Brasil, sou tomado também pela consciência do quanto somos medíocres, um bando de gente presunçosa que pouco contribuíram para um país positivo e pouco se doaram ao próximo fazendo barulho por conta das suas biografias previsíveis. É importante sim contar a história, todas as pessoas têm direito de registrar sua passagem pela terra, o papel de historiadores, pesquisadores e escritores é fundamental nisso, pessoas como esses profissionais são responsáveis por registrar a vida de  outras pessoas como Bakhita, sem eles histórias como essas se perderiam em meio ao universo pop da indústria do livro e cinema.
Bakhita, seja lá em que lugar você esteja, como dizemos aqui na Bahia, minha neguinha, neguinha como minha vó e mãe, meu muito obrigado pela luz e conforto que desde ontem estou sentindo, ao ver aquele filme, e mergulhar na paz, ao pesquisar sua vida e encontrar tantas histórias de que é possível sim o amor vencer a solidão,  ódio e ao abandono...
* Frase de uma música do Ilê Aiyê





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