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Coração Nordestino

Vênus tinha dois filhos, o Amor e a Paixão. A Paixão tinha inveja do Amor porque esse lhe parecia mais bonito e também sentia ciúmes da mãe por acreditar que ela gostava mais do Amor que dela própria. Tomada de raiva a Paixão furou os olhos do Amor, como castigo, Vênus determinou que para todo sempre a Paixão fosse guia do seu irmão Amor, ficando assim o Amor cego guiado pela louca da sua irmã, a Paixão. Mesmo cego o amor era querido e desejado, a Paixão, sempre chamada de louca, mas como era a guia do Amor, o fazia de tolo, a vida do Amor passou a ser quase sempre de frustração e tristeza, amava pelos olhos da sua irmã Paixão e quase sempre se machucava no que amava, quase sempre era abandonado, porque a Paixão atraia para o Amar todo tipo de sentimento, mas todos eram ansiosos e antes mesmo da primeira frase dita pelo Amor já estavam desejando novamente outros corações, a Paixão é fome, devora tudo e nada sente por completo o sabor na boca.
Paixão: necessidade de ter e se permitir, paz e alegria que anestesia qualquer dor, tesão a queimar entranhas. O Amor sempre acreditava nisso, porque essas coisas também faziam parte da sua vida, mas com um detalhe: só faziam sentido para ele se fosse tudo isso sentido com calma, apreciado sem pressa, o amor não tinha tempo para acontecer, simplesmente acontecia.
A Paixão ria do desespero do Amor, trazia nas mãos uma ampulheta e contava os segundos para o Amor ser abandonado, todas pessoas que cruzavam o caminho do Amor eram como o vento que nos toca, sentimos, gostamos, mas logo parte, o Amor refugiou-se na desconfiança, fugia para o inverno, e dormia durante as outras estações do ano, o Amor temia amar.
Talvez por isso o Amor seja sempre a busca e a Paixão aquele sentimento bom, que aproxima e pode até ser uma ponte ao Amor, mas ele é cego, requer tolerância, respeito às limitações, compreensão, solidariedade, disponibilidade para cuidar, confiança, carinho, cumplicidade e harmonia tudo que a Paixão não quer. Paixão é a busca pela sempre novidade, é a mesa animada de bar, a tentação sempre por perto, Paixão é a falta de zelo e cuidado, é sair sem se despedir e gozar e não se preocupar se o outro gozou, Paixão é vitrine, faz sexo, abraça e beija não só para si, mas para mostrar que é capaz de conquistar qualquer um, Paixão são como fotos que captam um momento e todos acreditam que aquela felicidade amanheceu o dia.
Até hoje a Paixão e o Amor vivem em conflito, Vênus, de longe observar seus filhos, a Paixão é a liberdade de ser de todos e de ninguém, faz troça da cara de quem quer ser apenas seu e de sua companhia, a Paixão não acredita em fidelidade por isso é sensualíssima , sabe o quanto é pelos olhos que se faz a sedução, olhos que seu irmão Amor não tem.
O Amor é como um nordestino, nordestinos são como judeus, podem falar a língua dos homens e dos anjos, mas a qualquer momento alguém o lembra que é nordestino e tenta jogá-lo ao chão, mas como o Amor não negamos nossa essência, mesmo guiados pela loucura cega do mundo, em verdade, não há nordestinos, brancos, negros, italianos ou árabes, há pessoas, algumas querem só o Amor, outras querem a Paixão ou a soma dos dois.
Eu, sou todo amor, desconfio e acredito, porque sem acreditar não há amor, sei que a Paixão é social, a vitrine dos sentimos, Amor é algo mais solitário, como passar a noite de sexta feira sozinho pensando no Amor enquanto la fora há sexo, encontros, pessoas saem e se divertem, outra fazem sexo algumas até encontraram o Amor, mas de alguma maneira todos se encontram, eu escrevo no braile das minhas crenças e buscas, o Amor é cego por isso mesmo também é de todos e para todos, então será para mim.



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