“Tenho nos olhos quimeras”*

Foto: Erlisangela N. Carvalho
Ao andar pelas trilhas do sertão nas férias de março, achava estranho quando era tempo de seca, aquele chão rachado tão diferente do litoral da Bahia no qual a chuva nunca foi problema, excetuando-se quando o velho Subaé resolvia deixar seu leito estreito e nos ensinar que com água não se brinca. O chão seco e rachado parecia o rosto velho da minha vó e das vós do litoral, a velhice não tem lugar, a velhice é o sertão seco e o litoral festivo, a Bahia mágica e por vezes tola.
Passei a vida perto da linha do trem, desde meu nascimento até hoje vivo perto da linha, o trem é aquele coisa meio dinossauro, meio encantamento, no sertão cortava os grotões, no litoral cruzava as pontes sobre o mar, o trem era e foi definitivamente meu encanto, as linhas tortas, o caminho para bem, a salvação da fome, o passado dizendo agradecido ao futuro que correu pela estrada de ferro.
A sociedade nos separa, a cultura nos separa, a economia nos separa, o país nos separa, estados nos separam, cor nos separam, gostos nos separam, mas a natureza nos iguala, iguala como a terra seca dos sertões da minha infância e a decadência do corpo no cantar horas do sino da matriz, a natureza é a universal verdade, única que não pode ser refutada, nos distancia de nós mesmo, do Ney menino quase nada carrego agora neste Ediney  sertão e litoral que me tornei, o trem continua passando pelas veias do meu corpo, uma velha Maria Fumaça apitando para a moderna locomotiva do sempre futuro que colho a cada estação.
“Casamiento de Negros” é uma canção de Violeta Parra gravada por Milton Nascimento no disco “Clube da Esquina2”, ao ouvir o Milton cantando essa canção me sinto tentado a jogar uma mochila nas costas e andar por toda América Latina, a América Latina é mágica, misteriosa, mas infelizmente desde criança somos alimentados apenas com dois mundos: Estados Unidos e Europa, como se não existisse o restante do mundo, isso é um erro, envelheceríamos mais lentos se o castelhano fosse oficialmente nossa segunda língua e o Brasil tivesse mais integrado aos outros povos latinos, muita gente pensa que nem latinos somos, mas somos.
A saudade é a chuva beijando o chão seco dos sertões, traz para o ar aquele cheiro de vida e de passado, verde oxigênio a beijar língua, fazer ventre de mulher crescer, eu toco teu sexo como quem do futuro ri do gostoso das nossas noites, pelo seco da saudade meu esperma faz filhos entre vogais e consoantes, coleciono cartas e sei o quanto o tom gentileza faz o bem do amor... Chove, desenho Charlie Browns no vidro da janela, garotinhas ruivas vêm e apagam tudo, então durmo com travesseiros entre as penas, dia quase noite de chuva, lembro-me de uma chuva que choveu quando eu era criança e morava no prédio da Leste: trovões e medo para sertanejos acostumados com chuva branda e amores sólidos.

* Da canção “ E daí” composta por Milton Nascimento e Ruy Guerra

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