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Ao Mojica com carinho


José Mojica é o presidente do Uruguai, olha só o que ele disse ao ser informado que pode ganhar o prêmio Nobel da Paz: “Estão loucos. Que prêmio da paz, nem prêmio de nada. Se me derem um prêmio desses seria uma honra para os humildes do Uruguai para conseguirem uns pesos a mais para fazer casinhas... No Uruguai temos muitas mulheres sozinhas com 4, 5 filhos porque os homens as abandonaram e lutamos para que possam ter um teto digno... Bom, para isso teria sentido. Mas a paz se leva dentro. E o prêmio eu já tenho. O prêmio está nas ruas do meu país. No abraço dos meus companheiros, nas casas humildes, nos bares, nas pessoas comuns. No meu país eu caminho pela rua e vou comer em qualquer bar sem essa parafernália de gente de Estado.”
Quando foi eleito presidente, Mojica, não quis as pompas do estado, recebe como presidente o salário do equivalente a R$ 22.122 reais, mas desse total doa 70% para ongs e pessoas pobres do seu país, seu carro é um fusca 1987, sempre é visto guindo seu carrinho pelas ruas, vive com sua esposa em um sítio perto de Montevidéu, não tem outra fonte de renda além dos seus vencimentos, vive com o que sobra das suas doações, 10% do seu salário, certa vez disse: “Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com bem menos.”
O presidente Mojica não tem cartões de créditos, nem conta em banco, no seu sítio planta hortaliças e outras coisas para o consumo próprio, mesmo tendo uma longa vida dedicada a política não teve seu nome até hoje envolvido em escândalos. É um homem diferente, talvez por ser tão somente um homem e nada mais além disso.
Mojica é certamente o presidente, de todo continente americano, o mais pobre, fato simples de ser comprovado, é o único presidente que só tem um fusca e um sítio como únicos patrimônios, recentemente seu fusca seria aprendido por falta do pagamento do licenciamento, o presidente pagou a divida, pode continuar indo a uma lanchonete no centro da cidade comer junto com o povo do seu país. Alegou como motivo pelo não pagamento falta de dinheiro.
Mojica não fala para o povo, ele é povo, não diz como o povo deve ser comportar, ele se comporta como povo, Mojica não se coloca como salvador do povo, sabe que o povo não precisa de salvadores, Mojica escolheu um vida simples, não para impressionar o povo ou se fazer de falso franciscano, ele é assim , simples. A única sedução que o poder tem sobre ele é a sedução de usar o cargo de presidente para fazer no Uruguai as reformas sociais concretas que o país precisa, diferente e muito diferente mesmo do que se faz aqui no Brasil em que reformas não vão além de gambiarras políticas e o poder seduz até os mortos. Lembrando ainda que o povo do Uruguai não é o mesmo que o daqui.
Estou convicto que é um erro investir de poder qualquer pessoa que não consiga enxergar além de si e que tenha com o poder uma relação indecente, o poder político não é para nos servir, é para servir ao próximo, mas não servir de uma maneira religiosa, servir no rigor da lei. O poder político desconhece a bondade ou maldade, não sabe o que é bom ou mal, serve tão somente a justiça, faz a justiça seja para quem quer que for, mas quando esse poder é bom ou mal passa a ser corrupto e criminoso, porque bem é mal são questões pessoais, o poder político não pode ser pessoal, nunca. Mas acontece que no Brasil ele é totalmente pessoal, você pode ser um coração do bem, mas se estiver for contra quem exerce o poder político, será transformado em um morto vivo, um lixo desses que se colocam nas calçadas.
Lamento profundamente pela trituração intelectual da nossa juventude, pela morte lenta e colorida da Educação Pública, pelas fábricas insanas de professores que não se dedicam aos estudos, pela fragilidade intelectual do povo que confunde fantasia com realidade, aqui não é Uruguai, um cara como Mojica não seria eleito no Brasil nem para vereador, aqui vale a ostentação política, mesmo que seja financiada pelas dores e misérias de todos nós.
No Brasil ainda se acredita na mística religiosa sacramentada pelo cinema de que há os bons e os maus e fora deles os heróis, tolo engano. O bem o mal são universais, estão em todos os lados, tanto do lado de quem oprime, tanto do que é o oprimido e os tais heróis (não raro) são sociopatas que não se concebem humanos, mas investido de um poder salvador, quando na verdade querem salvar a si mesmos e para além das suas loucuras, senhores e senhoras, dos tolos que vivem utopicamente o engano que  são protegidos por eles.
O presidente Mojica não é um falastrão, pouco aparece na tv e não pretende ser canonizado como a triste figura do Lula, lida cordialmente com a oposição, diferente daqui, que situação e oposição são ambas iguais, que histórias são criadas para justificarem os fins, e o povo (com alguma rara exceção) é espelho e alma dos seus representantes, quando Joaquim Barbosa manda prender um deputado federal, simbolicamente quem o elegeu também está sendo preso pelos mesmos crimes.


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