Pular para o conteúdo principal

O quase sempre

Foto: Ediney Santana
Algumas pessoas nunca deveriam ter nascido, outras nunca deveriam morrer, há pessoas que deveriam ser clonadas espiritualmente de tão conforto e encanto que se traduzem com seus sorrisos e jeito meigo. Às vezes paro na rua e fico olhando essas pessoas que nunca deveriam morrer, são diferentes, às vezes é uma velhinha de tão delicada parece abraçada por Deus naquele momento, outros tem nos olhos aquela luz boa da vida, algumas pessoas deveriam ser eternas como o dono do fusca azul que um dia na minha infância vi socorrendo um estranho na rua, algumas pessoas deveriam sempre ter aquele jeito de avó torrando café no quintal como minha vó Erundina fazia, coração maior que o mundo e para o bem do mundo.
Há pessoas que parecem ter nascido só para infernizar a calma, gente que não se aceita e vive em tempestade, gente escrava da própria covardia, gente que esquece a própria vida e passa a todo custo a querer viver vidas alheias, a gente que não merece confiança, mata com um sorriso e ainda é capaz de ir ao enterro. Há gente que só de olhar nos entristecemos, há pessoas que tudo que toca enferruja, gente tempestade e furação, gente tristeza e desolação, gente que tudo que faz, seja abraçar, beijar, segurar na mão, ajudar, dizer até que ama, enfim tudo que faz é para tirar algum proveito, gente perigosa, moscas de eternos velórios que são suas vidas.
No entanto até os filhos da puta têm importância. Os filhos da puta trazem equilíbrio, são aquelas moscas que dizem que algo de podre tá por perto, os filhos da puta dão razão a luz, são as sombras quando desejamos tão somente luz.
O tempo. Para o tempo tanto faz se penso que há pessoas que nunca deveriam morrer e sobre as que penso  que vivem para promover a desordem, todos dia menos dia vão morrer, para morte não existe juventude ou velhice,  pobres ou ricos, poderosos ou fracos, a morte apenas mata, por isso o que desejo para você sangue bom é: cuide-se, viva intensamente seus dias enquanto por algum motivo seu coração ainda bate, faça a cada dia o melhor da sua vida, não espere, realize, não idealiza corações, cuide do seu, pense no que vai deixar quando não for mais parte deste mundo, qual será seu legado? Um dia Fernando Pessoa, se fez essa pergunta: O de Fernando Pessoa foi escrever a maior obra poética em língua portuguesa de todos os tempos, na sua poesia deixou importantes contribuições filosóficas sobre nossa condição enquanto pessoas.
Não precisamos ser um Fernando Pessoa para deixar uma obra universal, mas podemos fazer sempre algo positivo, deixar algo de valoroso e fazer enquanto estivermos aqui esse algo melhor. Religião alguma torna ninguém melhor ou pior, não é a palavra que faz o homem ou a mulher, somos nós que fazemos a palavra acontecer ou não.
Qualquer geração vive menos que uma tartaruga, nos enganos com o tempo, acreditamos na nossa eternidade porque a morte não nos diz que estamos mortos, quando partimos só quem fica é que tem consciência da nossa partida, por tanto enquanto estamos conscientes é que devemos nos fazer melhor.
Honestamente bem e mal não me dizem muita coisa, penso que o melhor e pior de todos nós estão nisso que chamamos de bem e mal, o que é bom para você pode não ser para mim, o que é mal para você pode para outra pessoa não ser, por isso a justiça é tão temida, porque ser justo é não ser guiado pelo amor que sentimos por alguém, nem tão pouco pelo ódio, ser justo é cortar na carne de quem amamos se preciso for, a justiça deveria ser a base das nossas relações, mas é cômodo o discurso de bem versus o mal, enquanto a injustiça serve nossos sonhos na bandeja de Salomé.
Seja como for todos os anos prometemos que tudo será diferente, na virada do ano todo mundo por alguns minutos se transforma em anjos de igreja, aquele vizinho que nunca lhe desejou nem bom dia vai te abraçar e desejar feliz ano novo, aqueles conhecidos que tem seu celular e durante o ano todo vai aproveitar a promoção das operadoras e disparar torpedos para você, até aqueles criaturas abomináveis vão abraçar você, infelizmente quando for uma hora da madrugada o encanto acabou e todos voltam ao normal, ser bom e gentil agora só no próximo ano.
Aos amigos de sempre, para minha família, aos que querem meu bem e até aos que desejaram meu mal, aos leitores do Trombone, ao Alísio lago que mais uma vez me deixou escrever aqui durante todo ano... 2014 para luz e luz boa...


Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…