Um continente chamado decepção


Um tempo de felicidade sem conjugação verbal é um tempo de absoluta felicidade, um tempo sem conjugação verbal é um tempo que não passa, ele simplesmente é e se realiza em si mesmo. Ser alegria da vida a soma de todos os tempos, não envelhecer emoções, viver a eterna gentileza de somar nossa paz com a paz de outra pessoa, viver sem decreto, ter como constituição pessoal laços flexíveis de saber deixar partir o que ou quem delicadamente já nos diz do cansaço da nossa companhia, minha ética pessoal não é universal a ponto de por ela julgar aos que caminham ao meu lado, o limite é o respeito ao que cada um sente e como sente.
O Brasil é um continente chamado decepção. O Jornalista estadunidense Larry Rohter, em seu livro “Brasil em Alta” diz que uma das características mais marcantes de nós brasileiros é a do perdão, falou isso e citou a bondade como nós brasileiros tratamos criminosos, em especial políticos, que roubam, matam , sequestram e depois quando condenados renunciam ao seus mantados e são eleitos novamente tempos depois.
Até certo ponto concordo com Rohter, somos benevolentes em demasia, mas creio que isso se deva ao medo de dia menos dia sermos pegos como a boca na botija, fazendo algo errado e vergonhoso, perdoar então essa gente pavorosa seria uma espécie de solidariedade mórbida. O Brasil é um continente chamado decepção, não por acaso a expressão “santo do pau oco” tem toda razão de ser. Como sabemos, usavam-se santos para traficar de diamantes a documentos secretos no tempo do império. Uma inocente imagem a serviço do crime. O Brasil provoca insônia, estraga a cerveja no boteco e coloca água na esperança que por aqui cansada de apanhar nem sempre é a última que morrer, às vezes comete suicídio.
Em todos os países do mundo há decepção, cansaço em ter esperança, o problema é quando nos acostumamos com tudo isso, o Brasil é o país por excelência em que é a boca que deixa o cachimbo torto e não o contrário. Quando passamos a pensar que tudo é assim por ser assim mesmo, quando analisamos a nós mesmo e a sociedade pelo viés do fatalismo, perdemos o que de mais bonito temos: nossa capacidade criativa de todos os dias sermos pessoas diferentes sem perder a essência humana de que somos feitos, os fins começam a justificar os meios e nos perdermos na correnteza da mediocridade, nossas emoções parecem fabricadas em uma linha de montagem e tanto faz conhecermos pessoas novas, porque elas serão apenas repetições, podem parecer àquela novidade alegre, mas são como qualquer outra pessoa, não trazem novidade alguma além do entusiasmo de motel.
Mia Couto em seu livro “Vozes anoitecidas” escreveu: “O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes”. Pensamento tão belo quando triste do Mia Couto: “os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros”. Quando estamos saciados com que somos o que nos resta se não a morte? Primeiro a morte intelectual, depois a social e por fim a física, três dolorosos estágios para a morte definitiva, conjugarmos em um tempo sem verbo nossas vidas, sem o decreto de sermos  oficialmente algo,  certamente pode nos fazer mais felizes, mesmo quebrando a cara todos os dias é preciso lutar contra a tristeza e depressão, abraçar a vida, quem não é feliz em um lugar, certamente em outro o é.

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