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Do ódio e outros rancores

Namorei durante dez anos com uma menina (na Bahia todas as mulheres independente da idade são chamada carinhosamente de meninas), foram quase todos os anos bons, mas no décimo tudo caminhou para uma sopa que azeda, o que era amor transformou-se em ódio e rancor, promessas que azedaram, fidelidade que caiu por terra e uma coleção de farpas que bem poderiam ser evitadas, a verdade que quase todo fim é dramático, mas só o é quase sempre quando precedido por  uma história de amor que parecia eterna, a qual laços solidários pareciam inabaláveis. É incrível como da noite para o dia aquela pessoa que conhecíamos durante tanto tempo se transforma em alguém estranho e indigesto.
O que fiz diante a coleção de erros que levou ao fim do namoro? Voltei para casa, peguei todas as fotos, presentes e queimei tudo, não ficou nada, mas ainda restava o sentimento de rancor e ódio, então joguei tudo na vala da indiferença, como se aquela pessoa nunca tivesse existido em minha vida, um dia desses em um bar ela estava na mesa ao lado, olhei rapidamente e não consegui lembrar seu nome, dez anos de convivência e não lembrei por alguns segundos do seu nome.
A indiferença com os próprios sentimentos é o melhor caminho para quem termina um relacionamento, fico com a sabedoria de Waldick Soriano: “Ninguém é de Ninguém”. Claro que emoção não é o mesmo que uma regra matemática, amor pode viciar como qualquer droga, causar dependência e até loucura, mas penso que desde os primeiros passos de um relacionamento deve-se exercitar a independência emocional, como também a social, viver em e função de alguém não é caminho seguro para a felicidade pessoal quando mais a dois.
A ideia de que alguém nos pertence é trágica, muitas pessoas reagem mal ao fim de um relacionamento e não raro estragam a própria vida e a vida de quem ela pensa amar, quando o que há é o que chamo de demência da paixão, o macabro ritual de antropofagia sentimental que leva a degeneração espiritual e social do outra pessoa. Desce ao inferno e arrasta consigo a vida do suposto “amor da minha vida”, da pessoa que “ não sei viver sem você”, “ se não for minha de mais ninguém”, vai ao inferno pensando la encontrar o amor, quando vai cair na cama gelada da dor e sofrimento.
Há grupos de terapia para pessoas que amam descontroladamente, que não conseguem imaginar suas vidas sem as vidas das pessoas que um dia compartilharam suas razões de viver. Aprender a ouvir não e caminhar por outras emoções não é muito fácil para muitas pessoas, não sou nenhuma Helen Fisher, tudo que escrevo é baseado em experiências próprias e nas observações que faço de pessoas, mas penso que a Helen Fisher nos traz uma contribuição espetacular para compreendermos a lidar com esse sentimento tão maravilhoso quanto perigoso que é o amor.
Li pela primeira vez um texto da Helen Fisher quando estudava no Colégio Senador Pedro Lago: “O barato do amor”. Nunca mais esqueci, assustador descobri que o amor pode viciar tanto quanto cocaína e causar sensações parecidas ao uso de drogas alucinógenas.
Penso às vezes como uma história que foi feliz pode terminar com um dos dois lados fazendo de tudo para infernizar um ao outro, talvez seja desequilíbrio mesmo, talvez sentimento de posse doente, talvez uma maneira estupida de dizer o quanto ainda é ligada a esse pessoa, seja como for, a melhor lembrança de uma história que terminou azedada é indiferença, rasgar cartas e fotografias, deixar os segredos do quarto no silêncio do passado, olhar com indiferença e seguir a vida, são 7 bilhões de pessoas no mundo, creio que há sempre alguém em algum lugar para caminharmos juntos, como diz uma canção: “na mesma direção”, quando não for possível, cada um no seu caminho, sem dor e nem choro de criança que não sabe perder no jogo de bafo.

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