“Flores atrais”

Sai do emprego, o emprego saiu de mim, agora estou na fila da homologação, palavra estranha: “homologação”, para assinar a tal homologação e pegar meu seguro desemprego tenho que ir ao sindicato, nem sabia que pagava um sindicato, os putos nunca apareceram no meu trabalho nem para me pedir para votar na mocreia da Dilma. O índice de putos no mundo têm aumentado assustadoramente, ou talvez eles apenas não tenham mais vergonha de se assumirem putos, sabem que a possibilidade de um puto se foder no mundo é bem pequena, o mundo ficou mais perigoso para não putos, ou seja, os sinceros e românticos corações salpicados de lirismo cor de rosa; você leva uma flor para alguém e recebe de volta um buquê de urtigas e ainda querem que você sorria com a delicadeza de uma camélia em prostíbulo de estrada.
Tenho uma amiga psicóloga, a Gabi, a vantagem de ter uma amiga psicóloga é saber que nem mesmo essa gente estranha que ganha à vida para acalmar nossos demônios conseguem se livrar totalmente dos seus, não estamos sós no reino tenebroso e ébrio que é dialogar com os próprios botões, alguns desses botões falam javanês para ouvidos dolorosamente portugueses.
A Gabi disse que sou tolerante demais com o que não é tão doce assim como minha língua insiste em dizer para mim que é. “Seja menos tolerante Ney, se o doce for doce mesmo ele vai permanecer doce, se não vai azedar como um porco espinho encurralado contra parede”. A Gabi adora metáforas, acho que todos psicólogos gostam disso, talvez por isso muita gente pense ser psicólogo, só pegar uma frase bonitinha e dizer: “agora a salvação depende de você, segura nas mãos do irmão sol e vai buscar o destino que é teu”.
Quero me masturbar com a realidade, alguém tem uma passagem para a Dinamarca?
Qual a melhor maneira de enganar alguém? Mentido? Errou, a melhor maneira de enganar alguém é contando uma verdade, por mais que seja uma verdade sacana vai parecer que abriu seu coração, ao se revelar sem pudor na alma nem no corpo,se revela também alguém que por amor não tem medo de dizer o quanto errou, você confessa uma puta sacanagem e é só esperar, se confessou não é mais pecador, não mentiu, o bom e lírico coração pode fazer cara feia, torcer o nariz, mas acaba "entendendo" que sacanagem revelada é menos dolorida que sacanagem escondida.
Tudo bem, mas e a homologação? Bem, agora desempregado evito andar pelas ruas, só o necessário, odeio ser parado  e me perguntarem sobre desemprego, novas perspectiva... E o pior, os olhares de piedade. Sou o tipo que não divide dor, daqueles que se com fome e não ha maneira alguma de comer mesmo, morro de fome, mas antes cavo a própria sepultura, pavor de transmitir para outra pessoa minhas dores e agonias.
Gabriely del Fabria, a Gabi, mesmo sendo formada, pós graduada em um monte de coisas, acha que responsabilidade se divide, eu penso que algumas sim outras não, minhas dores, são todas minhas , só minhas, meus erros levo-os comigo para o seno da noite, não posso despertar na vida de pessoa alguma a tristeza das minhas frustrações, sou o que agarrando nas paredes se levanta, olhar para o horizonte e diz: estou indo.
Gabi diz que soma-se duas pessoas para carregar o andor da vida torna tudo mais fácil. O andor da vida, o sal e santo das nossas vidas.Seria bom, mas nestes tempos no qual você acaba de levantar da cama que passou a noite  com  outra pessoa e ela  não lembra nem desejar: tenha um bom dia, é algo meio bonito de dizer, mas utopia franciscana em templo cartesiano.
De todos os fenômenos da natureza, um é metáfora perfeita para vida, a ferrugem. Começa com os pontinhos, inofensivos, crescem e estragam tudo. Assim é no trabalho, pequenos pontos de ferrugem vão lentamente devorando tudo, na vida entre pessoas, pequenos pontos de ferrugem vão devorando as alegrias, vão criando cismas e se não agirmos diretamente neles enquanto estão pequenos, nem a Gabi resolve, vamos todos para a fila da homologação, mas se a homologação é o fim, pode ser também um fantástico momento de recomeço.



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