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Literatura

Eu caminho, voo com meus pés, porque há pessoas quase gente que não sabem andar com os próprios pés, o diabo apareceu em minha porta, tinha um cartão de crédito e duas lindas prostitutas, joguei água benta, a mesma água benta do meu avô Leó que lá nas matas dos nossos sertões salvou nossas mães da solidão de morrem na infância, caminho entre árvores tão tristes da Praça da Purificação, cada dia mais envelhecidas elas não se alegram com meus olhos e ainda há oxigênio nos meus pulmões. Escrevi cartas aos reis magos: não voltem mais aqui, a estrela de Belém é um arranha céu que se desejou estrela no céu de São Paulo, hoje encantei-me com calangos que vivem no meu quintal, já não sentem medo de mim.
Eu não gosto da Clarice Lispector, sinto sono e cansaço quando leio suas histórias, mas seus olhos de tão profundos me comovem medo, queria colo como mãe criança aprendendo a amamentar sutilezas, hoje no meu quarto aconteceu o congresso de todos solitários do mundo, mil línguas se lambiam na babel sagrada do amor que só os solitários sentem.
Quem anda sobre águas não tem medo do fogo que é outro corpo sangrando amor em outra alma, hoje no meu quarto aconteceu o congresso internacional dos corações felizes, no canto da sala olhos iluminados são corações sagrados, eu amo esse amor que sinto pela luz.
Literatura: quero caminhar ao teu lado quando a noite chegar, a Bahia é tão triste, tudo tão gelado que se derrete ao calor do meu coração a bater pertinho do seu, não morrer quem se faz vida para além disso que somos, vivemos alma e literatura barroca.
Não me admira meu lado mal, não me traz orgasmo meu lado iluminado de borboletas, beijo a navalha e me masturbo olhando a fotografia triste, me abraça gametas e pelo chão fica meu amor, olho meus dedos e mãos sujos de Via-Láctea me diz o quanto sou o amor mais encarcerado do universo, quem sabe de mim sou eu.
Sou eterno gerúndio intransitivo, minha língua roça canteiros selvagens, nada que sou é perfeito, mas amo corações nus como o meu tão somente também é. Quando chega a noite sinto tanta falta de você, literatura dentro de mim, olhos abobalhados de quem sabe que amar não é o mesmo que ser feliz.
A música toca, alguém faz aniversário, os pobres são tão felizes, são felizes porque quando cegos tudo é a máxima alegria do que se é,  olho a serpente na parede do meu quarto, tudo tão lisérgico quanto Tony Maro inventando canções em sua eterna madrugada, tudo tão barroco quanto Dinho Fagundes revivendo renascimentos improváveis nesta Bahia triste triste triste tão triste e triste absolutamente triste como os olhos de quem escapa de um terremoto e não sabe se ainda vivo ou síntese da morte.
O lugar mais lindo do mundo é o meu quarto, la fora os monstros de sempre, aqui dentro só me falta você, furação rosa, pele rosa em flor branca a si abrir para mim quando da minha língua goteja você, abre tua flor branca e faço carnaval dentro de você, lugar sal e paraíso em que deus é a mulher que é você.
Ps- Texto livremente inspirado na canção “ Estou Triste” de Caetano Veloso


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