Carta do ódio

O ódio tem sido  carta apresentação mais usada no Brasil, quem se diz do lado do “bem”, com alguma exceção, não tem pudor alguém em sacar dos seus ranços primitivos o mais profundo ódio, sectarismo e intolerância para justificar a cruzada que dizem liderar contra o “mal”. Assim é possível nas entrelinhas de um discurso cheio de “boas intenções”, observarmos  desejo de sangue e dor nos olhos que se presumem arautos de uma nova ordem: a ordem na qual o mal pode ser ponte para o bem. Como se isso fosse possível, o mal levar-nos para algum lugar no qual ele mesmo não seja o senhor dos dias.
Para combater a intolerância são intolerantes, contra a violência são truculentos, falam em diversidade, mas defendem o totalitarismo de um mundo singular, não suportam a menor contrariedade de suas ideias, se dizem libertários, no entanto servem a governos criminosos, presunçosos negam ao debate livre de ideias, o único sentido que dão a palavra liberdade é de  prostrados dizermos amém as suas almas chicote e casa grande, é o único sentido possível para liberdade neste ceticismo estupido , necessitam das correntes para justificar seus discursos desprovidos de amor e solidariedade, passam pelas ruas e não sentem a dor dos que no lixo dormem expropriados da própria humanidade. Neste cruzamento moribundo entre esquerda e direita, movimentos sociais e casa grande encontramos sempre a mesma gana pelo poder, ambos nutrem-se da decadência humana, somos para essa corja apenas cadáveres ambulantes.
No Brasil não há pecadores, todos são santos, Chico Buarque há tempos cantou que não existe pecado do lado de baixo do Equador, pecador é todo aquele que não faz parte do estado permanente de santificação de um regime ou sistema social nos quais abutres são doutores em mortes e misérias, são a ordem.
É negado o direito do diverso, como no mito de Plantão, pessoa alguma é bem vinda se descobre outras possíveis leituras da realidade, se todos são iguais não há crime ou quebra de ordem, apontar que o rei anda nu é o absurdo da diversidade em seu estado mais pueril e isto geralmente é punido severamente pelos “bons” para que todas conquistas do “povo”, de “felicidade” ou “prosperidade” não sejam abaladas pela desconfiança dos “maus”.
No Brasil quase todos que descobrem a farsa dos santos pecadores se utilizam dos mesmos estratagemas de mentiras e corrupção para um dia ocupar os altares imorais do poder, não há perspectiva de mudança concreta, o “bem” dito nos discursos quase sempre é só uma estratégia para a conquista de comando, logo logo descobrimos o quanto desse lado sul do Equador continua não existindo pecadores, porque o “bem” é a universalização da lama independentemente de quem sejam os porcos que nela se deitem.
O bem real é exilado, vivemos uma nova inquisição, agora moral e ética. Deus e o diabo andam tão misturados que s rezamos para um e se é arrebatado por outro, a solidão ética é o destino dos que coletivamente sentem suas utopias sem ares de ditador ou desejo de poder soberano sobre as pessoas.
O ódio é a grade estratégia ideológica, há muito que o debate livre de ideias foi sufocado no país, nas nossas universidades os estudantes são incentivados, com rara exceção, por professores copistas a tão somente copiarem ideia, a bibliografia é mais importante que a criatividade e curiosidade intelectual dos alunos, aliás, são duas palavras malditas na educação do país: curiosidade e criatividade. Gerações de intolerantes, assim pouco a pouco não se conversa mais, grita-se, impõe-se, o imperativo passa ser o tempo normal de uma sociedade invariável e perigosa, esse é o legado dessa geração nefasta, cruzamento entre porta de fábrica e arrogância acadêmica.
Um dia desses na Feira Internacional de literatura de Cachoeira-Ba o escritor Demétrio Magnoli foi impedido de falar por um grupo de pessoas que se diziam os mais puros representantes do “bem”, enquanto Magnoli o mais puro representante do “mal” deveria ser expulso do lugar, neste episódio uma triste constatação, além da falta de educação da turminha do “bem”, a certeza de que se sentassem naquela mesa para um debate com o Magnoli não teriam o que dizer ou contra argumentar, e aqui a questão central do usar da intolerância como expoente de uma intelectualidade débil: são ocos, não tem o que dizer, arrotam rodapés de xerox de Marx e se lambuzam na cólera que dizem ser contra.
O ódio serve também para camuflar a falta de estudo, ignorância e despreparo intelectual. Há muito percebi o quanto tanto o lixo político que se chama de direita ou esquerda no Brasil vem tentado recriar a guerra fria em uma versão brasileira e demente, fala-se em golpe comunista que será dado pelo PT, PT que serve como um cachorrinho bem manso os donos dos capitais, fala-se da direita golpista, nazista e todo esse lixo, mesma direita que todas noites dorme politicamente na cama com o PT e todas manhãs parem filhos dos mais tristes: violência, intolerância, crimes e tudo que não presta.
Artistas comprados e controlados através da Lei Rouanet cantam suas vidas fúteis e festejam o país surreal, enquanto isso milhares de artistas pobres não conseguem nem tintas para pintar um quadro, quanto mais publicar um livro ou gravar um CD, tudo isso em nome do “bem” para vencer o “mal”. A carta de ódio serve para todos.
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