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Cuidar do jardim

                    O Astronauta :Catedral Vieja de Salamanca

E estava sempre a cuidar do jardim do outro lado da rua, todos os dias molhava suas plantas e flores, quando um dia lembrou-se do seu próprio jardim já não havia o que fazer, todas as flores e plantas estavam mortas, a terra seca não fazia sentido mais para o verde que antes havia ali. Olhou para o outro lado da rua, estava lindo o jardim que não era seu, mas cuidou como se fosse, ajoelhado a olhar para um casal abraçado entre  flores cultivadas por ele, chorou, pegou nas mãos um galho seco de “Amor Perfeito”, estava ele tão seco quanto aquele galho.
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O homem do conselho, não era conselheiro de um tribunal  ou comunitário, era o homem que adorava aconselhar, todos adoravam seus conselhos, ficava sentado na praça e uma longa fila se formava a sua volta, lhe pediam conselhos sobre tudo e sobre tudo ele dava. Assim o gari foi ser médico, o professor padeiro, a mulher da esquina casou-se com o prefeito, o delegado foi ser padre, o juiz foi ser honesto. Anos ele sentado dando conselhos, não levantava, não comia, não dormia, só aconselhava, quem era aconselhado não voltava mais, o homem dos conselhos foi ficando, até que um dia morreu, quem estava na fila reclamou: “ morrer justamente na minha vez de aconselhar!!!” Deu as costas e partiu, ninguém chorou por ele, ninguém se lembrou de enterrá-lo, alguns passarinhos levaram seu corpo pelo céu e desapareceram entre a solidão do morto e nuvens.

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A mulher da aliança e seu marido: ela dizia que o amava, mas toda vez que estava sem ele tirava a aliança, na cama dizia que o amava, mas nunca tirava o vestido na hora do sexo, ele nunca viu o corpo da esposa que dizia o amar, mas quando ia para rua, a esposa, tirava a aliança e trocava o vestido longo por roupas nas quais sua nudez era fácil. Ele adorava olhar a aliança no dedo da esposa, era a prova do grande amor que ela por ele sentia, um dia na Rua Das Roseiras, encontrou a esposa quase nua, sentada ao lado de outra mulher, não ligou para nudez, mas ao ver que ela estava sem aliança, deu um tiro na cabeça... Dele

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Cinquentas anos ficou sem sair de casa, adorava seu quintal, principalmente, adorava escrever poesias e romances, dizia para si mesmo: “sou gênio”. Quando achou ser o momento de ganhar o mundo saiu na rua, foi atropelado por um caminhão que tinha a seguinte frase no para-choque: “Saudade só mata os trochas”, na sua mão o rascunho de um romance seu, escrito trinta anos antes, título? “saudade só mata os trochas”.


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Era amor todo tempo. Confeccionava flores de papel, em cada uma escrevia um poema  de amor, ia de hospital em hospital oferecendo suas flores, um dia caiu e morreu na porta da Santa Casa, tinha  flores nas mãos, sacolas e bolsos. Nome? Carro? Irmã gostosa? Tem Cartão de créditos? Parente importante? Todas respostas foram negativas. E essas flores? Todas de papel.
Jogaram suas flores no lixo, enterram-no em uma cova rasa, não havia cruz ou nome, apenas um número.


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Ouvia Castles in the Air, pensava como seria bom se tudo fosse como aquela melodia linda, sonhava com seus castelos, com a  arca do Zé Colmeia . Sonhava dançando Crying com seu amor, porque
seu coração sempre sonhava coisas boas, podia levitar nos seus sonhos: alguém jogou sobre ele um balde de água fria, morreu de choque térmico.





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