Das nossas virtudes

Obra de: Arthur Berzinsh
A cada novo dia estou mais convicto que só podemos viver plenamente felizes, se não negarmos nossas franquezas, assumir nossas fragilidades traz desconforto porque a pedagogia do Super-Homem ou Mulher Maravilha não deixa espaço para quem mergulhado em si estende suas mãos para outro e diz: “me ajuda”, “não sei, perdi”, “não consigo”, “estou deprimido”, “preciso de compressão”. Mostrar-se frágil é ser reprovado no mundo em que a essência do que se é perder para a circunstância do que se está sendo.
Não há Super- Homem ou Mulher Maravilha que não tenha seus dias, momentos de angústia, porque a circunstância de se está sendo passa.  Quem hoje é primeiro lugar no está sendo, amanhã pode não se encontrado nem nos livros de história, sobra então o vazio do “está sendo” que não representa mais coisa alguma, neste momento quem não sabe lidar com as fraquezas devora a si mesmo com traças ao frágil papel. Nada mais angustiante do que um vencedor que ninguém lembra mais da sua vitória e para si próprio não passa de lembranças emboloradas na nostalgia de quem foi transformado por si mesmo em um museu de mágoas.
Sem perder o medo de nos mostrarmos nus com todas nossas fragilidades, nos sobra reafirmar o discurso de ódio e arrogância tão celebrado nesse começo de século e que tem nos levado a instabilidade das relações. Quando negamos nossa fragilidade podemos criar um estado de alma bruta e nele buscarmos afirmação, esse estado parte do mal viver e certamente leva a dor de viver.
A primeira nudez a ser revelada, é nos olharmos sinceramente, sem piedade ou auto-engano e saber: enquanto pessoas as únicas divindades que nos coube é a vida e a morte, mas neste espaço entre vida e morte temos uma espetacular oportunidade de nos abraçarmos com solidariedade e respeito, saber o quanto competir não é esmagar a oportunidade de outra pessoa de ser também vencedora, desejar o bem só para si pouco pode nos trazer paz de espírito, conhecimento é para ser compartilhado e continuado, solidão e isolamento são duas coisas diferentes, ninguém nasceu para o isolamento ou negação de felicidade, tão pouco podemos ser autoridade sentimental ou espiritual na vida de pessoa alguma.
A Segunda nudez é ter consciência do quanto à decepção pode ser amarga, criarmos expectativas, seja em relação íntima aos nossos desejos ou em relação à outra pessoa, semear nessas expectativas sementes boas a nos alegrar ao futuro não pode ser mera retórica, por tanto ser consciente com o que dizemos sentir é importante para não presenciamos a metamorfose do amor em ódio.
A felicidade é esse estado bom de sermos quem somos na mais plena nudez espiritual. Desconfio de quem aparentemente tem sempre a palavra certa para tudo, de quem parece ter sido feito sobre medida para nós, de quem advinha nossos pensamentos, porque na verdade não advinha nada, tão somente pode está nos induzindo a pensar, olho nos olhos dessa pessoa que se faz "exata" nas minhas emoções e busco aquela nudez, aquela coisa que eu sei que está ali escondida, nada que é humano pode nos traz vergonha, se alguma coisas se esconde diante tanta solicitude alguma nódoa há de ter.
Para existir o amor, saber o quanto somos incompletos é essencial, amamos no outro, alguém já escreveu, o que falta em nós, então só podemos amar se nos acharmos incompletos. Amar nos deixa nus, porque diante outra pessoa aceitamos nossas fragilidades, se amor for, generosamente nos pega pelas mãos e mais que nossos corpos, como diz uma canção do Nando Reis, nos aquece a alma.



Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys