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O amigo do poeta

Augusto Guimarães
Saber-se bom não é o mesmo quando alguém nos reconhece como tal, todo mundo gosta de ser reconhecido, mesmo convicto de que se é capaz de algo, faz bem ao espírito sermos valorizados ou estimulados, quem só sabe aplaudir a si mesmo e acredita que se basta como começo, meio e fim corre sério risco de ir terminar seus dias no manicômio ou na sarjeta do ego despedaço quando descobrir, se descobrir, que sua "maravilhosa invenção" já caducou no fazer de outros loucos. Quem recebe aplausos deve ter a solicitude de também aplaudir e estender a mão.
Para “ser” além das minhas potencialidades desejo também que meu “ser” seja reconhecido, esse reconhecimento pode vir de muitas maneiras, mas para mim o começo de tudo é estarmos cercados de pessoas amigas, que sem falsos aplausos ou incentivos piedosos, não só desejam nosso bem, como reconhecem em nós todas condições para vivermos aquilo que demostramos habilidade e talento , nos ajuda a caminhar com mais segurança ou ainda abre portas que sozinhos mesmo com todo talento e inteligência não conseguiríamos abrir.
Castro Alves teve um amigo para todos os momentos, por detrás da genialidade de escritor, havia um jovem homem atormentado com seus amores, dificuldades financeiras , brigas com a família e claro muitas confusões políticas, se hoje ficar contra o governo pode causar sérios problemas para qualquer um, imaginemos em um Brasil distante no qual a lei era o chicote. Quando Castro Alves chegou ao Recife para cursar direito encontrou por lá outro baiano, Augusto Guimarães, nunca mais se separaram, fiel escudeiro foi dele a responsabilidade de preparar o único livro publicado por Castro Alves, Espumas Flutuantes.
Escreveu Castro Alves sobre o pedido feito ao amigo a respeito da edição do seu livro: Encarreguei o amigo Augusto Guimarães de acompanhar a publicação do livro em seus detalhes: tipografia, papel, tiragem, e meti-me no interior da Bahia, de volta a Curralinho, em busca de sossego mental e regeneração física”. E assim foi feito, Augusto Guimarães cuidou de tudo, certa vez escreveu ao amigo poeta, já naquele momento bastante enfermo: “Sabes que quanto maior é uma glória, mais são os invejosos; quanto mais merecimento se tem, cresce mais o número dos detratores”. Escreveu isso alertando Castro Alves do cuidado e critério na seleção de poemas para compor a obra, alguns poemas foram deixados de fora por sugestão sua.
Augusto Guimarães foi ao seu tempo não só um amigo zeloso, mas o maior divulgador da obra de Castro Alves, até o fim dos seus dias nunca se esqueceu do amigo e poeta, quando morreu em 1896 já havia ajudado e muito a perpetuar a memória de Castro Alves.
Quando já bastante doente, Castro Alves se apaixonou por Agnese Trinci Murri, era uma jovem cantora italiana que aos 22 anos abandonara o marido, veio para o Brasil e foi a última paixão do poeta, mas Agnese sabia do estado de saúde de Castro Alves, mesmo com todo jogo de sedução do poeta, ela não se deixou conquistar. Amigo na alegria, amigo na dor, Augusto Guimarães tentou ajudar seu amigo nesta que seria sua última conquista amorosa, marcaram um encontro cada um com seu par no Foral da Barra, mas nada aconteceu, Castro Alves enfim viveu a sina do amor platônico de todos os poetas românticos que o antecederam. Anos mais tarde na Europa Agnese confessou ter amado Castro Alves, mas não podia viver um amor que estava morrendo, se não morreria junto.
Dois jovens, da mesma geração, inteligentes e cultos, um vivia suas contradições de ser artistas e a pressão de ter que “vencer” na vida de maneira objetiva, mas nunca conseguiu se formar ou ter um emprego formal, o outro formou-se e foi :  deputado estadual, senador, intendente municipal , vice- presidente da província  e dono do jornal “ Diário da Bahia”, foi também o responsável pela primeira eleição vitoriosa de outra amigo seu e de Castro Alves, Rui Barbosa, sobre o qual escreveu: “ Carreguei o homem nos ombros . Fi-lo deputado”
Sobre Augusto Guimarães diziam que ele não sabia dizer “não”, era solicito e sempre disposto a ajudar. Histórias de amizade como essa me comovem, Castro Alves quando morreu estava longe de ser o filho de um médico famoso, seu pai morrera há tempos, a família não tinha a mesma condição financeira de antes, outro poeta  por paixão e letrista por profissão, Renato Russo, escreveu em versos românticos os desenganos de sozinho não bastar-se: “Todos se afastam quando o mundo está errado/ quando o que temos é um catálogo de erros, quando precisamos de carinho/ força e cuidado”. Apesar da força desses versos e das verdades que contém,  nem sempre é assim, amizade entre dois bons corações deixaram para eternidade não só um exemplo de cuidado e carinho, mas uma obra genial e eterna.
Fonte de pesquisa: A vida sentimental de Castro Alves/ Archimimo Ornellas/ 2ª ed, Livraria Progresso Editora, 1957
A Tempestade, Legião Urbana, EMI, 1996



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